Paulo Moreira Leite Desde janeiro de 2013, é diretor da ISTOÉ em Brasília. Dirigiu a Época e foi redator chefe da VEJA, correspondente em Paris e em Washington. É autor do livro A mulher que era o general da casa — Histórias da resistência civil à ditadura.

Hugo Chávez

Como tantos personagens da América Latina, Hugo Chávez morreu como objeto da história.

 

 

Não teve direito a contar sua própria versão dos fatos. Não foi ouvido nem pôde explicar-se. Foi explicado, analisado e julgado – por adversários e inimigos.

Num continente onde a elite política convive com a má consciência de quem nada fez de relevante pela melhoria das condições de vida do povo, mas nem por isso abre  mão de 100% do conforto que só um imenso  egoísmo social permite, o combate a toda liderança nascida fora de seu berço é uma necessidade permanente.

Se ainda em 2012, 58 anos depois daquele tiro no peito, ainda se publicam livros em que Getúlio Vargas é chamado de fascista, salazarista, franquista…

Sabemos o que se faz com Lula. Imagine-se o que será feito com Chávez.

Embora um de seus antecessores estivesse na lista de autoridades pagas pela CIA,  Chávez é chamado de inimigo da democracia.

Embora tenha sido vítima de um golpe de Estado articulado por empresários e militares conservadores e com apoio imediato de Washington, foi chamado de autoritário. Fez um governo que pela primeira vez enfrentou um ambiente de desigualdade social histórica e foi chamado de populista. Melhorou a saúde pública, especialmente os índices de mortalidade infantil, para patamares aplaudidos pela OMS. Foi chamado de demagogo.

A retórica é conhecida. Para se recordar que há muito a ser feito — o que é certíssimo –,  tenta-se minimizar o pouco que conseguiu ele realizar, ainda que este seja essencial para quem não tinha nada.

É um problema de ponto de vista. É assim na história daqueles que não conseguiram o direito de narrá-la.
Mas algo está mudando e Chávez, com suas qualidades e seus defeitos, é parte dessa novidade.
 
Sempre se evitará comparar Hugo Chávez com seus adversários, por uma razão muito simples. 

Na soma de qualidades e defeitos, acertos, erros e desastres, seus antecessores foram muito piores. E é por isso que, mesmo com inflação alta, crescimento baixo e até falta de comida em determinados momentos, nunca deixou de vencer eleições, cuja legitimidade sempre foi reconhecida por observadores isentos, como Jimmy Carter.

A falta de espelho permite grandes atrocidades – morais, políticas, históricas – sem que seja possível corar de vergonha.

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