SÁBIA…

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COMO OS EUA CONQUISTARAM O BRASIL USANDO A MÍDIA

Como os EUA conquistaram o Brasil usando a mídia

 
 
 


Em 1957, uma CPI da Câmara dos Deputados, comprovou que O Estado de São Paulo, O Globo e Correio da Manhã foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem campanhas contra a nacionalização do petróleo.



Por Leandro Severo*

Nelson Rockfeller, governador de Nova York,
recebido pelo ditador Costa e Silva.

Em momentos cruciais para o país se inclinaram para o golpismo e a traição aos interesses nacionais: contra Getúlio, a Petrobrás, JK, contra Jango, apoiando a ditadura, Collor, FHC e suas privatizações, atacando Lula.

Em 1941, enquanto milhões de homens e mulheres derramavam seu sangue pela liberdade nos campos da Europa e da União Soviética, a elite dos círculos financeiros dos Estados Unidos já traçava seus planos para o pós-guerra.

Nelson Rockefeller 

Como afirmou Nelson Rockefeller, filho do magnata do petróleo John D. Rockefeller, em memorando que apresentava sua visão ao presidente Roosevelt:“Independente do resultado da guerra, com uma vitória alemã ou aliada, os Estados Unidos devem proteger sua posição internacional através do uso de meios econômicos que sejam competitivamente eficazes…”(COLBY, p.127, 1998).

Seu objetivo: o domínio do comércio mundial, através da ocupação dos mercados e da posse das principais fontes de matéria-prima.

Anos mais tarde o ex-secretário de imprensa do Congresso americano, Gerald Colby, sentenciava sobre Rockefeller: “No esforço para extrair os recursos mais estratégicos da América Latina com menores custos, ele não poupava meios” (COLBY, p.181, 1998).

Henry Luce

Neste mesmo ano, Henry Luce, editor e proprietário de um complexo de comunicações que tinha entre seus títulos as revistas Time, Life e Fortune, convocou os norte-americanos a“aceitar de todo o coração nosso dever e oportunidade, como a nação mais poderosa do mundo, o pleno impacto de nossa influência para objetivos que consideremos convenientes e por meios que julguemos apropriados”(SCHILLER, p.11, 1976).

Ele percebeu, com clareza, que a união do poder econômico com o controle da informação seria a questão central para a formação da opinião pública, a nova essência do poder nacional e internacional.

 Evidentemente para que os planos de ocupação econômica pelas corporações americanas fossem alcançados havia uma batalha a ser vencida: Como usurpar a independência de nações que lutaram por seus direitos? Como justificar uma postura imperialista do país que realizou a primeira insurreição anticolonial?

Herbert Schiller

A resposta a esta pergunta foi dada com rigor pelo historiador Herbert Schiller:“Existe um poderoso sistema de comunicações para assegurar nas áreas penetradas, não uma submissão rancorosa, mas sim uma lealdade de braços abertos, identificando a presença americana com a liberdade – liberdade de comércio, liberdade de palavra e liberdade de empresa. Em suma, a florescente cadeia dominante da economia e das finanças americanas utiliza os meios de comunicação para sua defesa e entrincheiramento onde quer que já esteja instalada e para sua expansão até lugares onde espera tornar-se ativa” (SCHILLER, p.13, 1976).

Foi exatamente ao que seu setor de comunicações se dedicou. Estava com as costas quentes, já que as agências de publicidade americanas cuidavam das marcas destinadas a substituir as concorrentes europeias arrasadas pela guerra.

O setor industrial dos EUA havia alcançado um vertiginoso aumento de 450% em seu lucro líquido no período 1940-1945, turbinado pelos contratos de guerra e subsídios governamentais.

Com esta plataforma invadiram a América Latina e o mundo.

Com o suporte do coordenador de Assuntos Interamericanos (CIIA), Nelson Rockefeller, mais de mil e duzentos donos de jornais latinos recebiam, de forma subsidiada, toneladas de papel de imprensa, transportada por navios americanos.

Além disso, milhões de dólares em anúncios publicitários das maiores corporações eram seletivamente distribuídos. É claro que o papel e a publicidade não vinham sozinhos, estavam acompanhados de uma verdadeira enxurrada de matérias, reportagens, entrevistas e releases preparadas pela divisão de imprensa do Departamento de Estado dos EUA.

A vontade de conquistar as novas “colônias” e ocupar novos territórios como haviam feito no século anterior, no velho oeste, não tinha limites.

No Brasil, circulava desde 1942, a revista Seleções (do Reader’s Digest), trazida por Robert Lund, de Nova York.
A revista, bem como outras publicações estrangeiras, pagavam os devidos direitos aduaneiros por se tratarem de produtos importados, mas solicitou, e foi atendida pelo procurador da República, Temístocles Cavalcânti, o direito de ser editada e distribuída no Brasil, com o argumento de ser uma revista sem implicações políticas e limitada a publicar conteúdos culturais e científicos. Assim começou a tragédia.


Logo chegou o grupo Vision Inc., também de Nova York, com as revistas Dirigente Industrial, Dirigente Rural, Dirigente Construtor e muitos outros títulos que vinham repletos de anúncios das corporações industriais.

Um fato bastante ilustrativo foi o da revista brasileira Cruzeiro Internacional, concorrente da Life International, que apesar de possuir grande circulação, nunca foi brindada com anúncios, enquanto a concorrente americana anunciava produtos que, muitas vezes, nem sequer estavam à venda no Brasil.



Ficava claro que os critérios até então estabelecidos para o mercado publicitário, como tempo de circulação efetiva, eficiência de mensagem e comprovação de tiragem, de nada adiantavam. O que estava em jogo era muito maior.

Um papel importantíssimo na ocupação dos novos mercados foi desempenhado pelas agências de publicidade americanas. McCann-Erickson e J. Warter Thompson eram as principais e tinham seu trabalho coordenado diretamente pelo Departamento de Estado. Para se ter uma ideia a McCann-Erickson , nos anos 60, possuía 70 escritórios e empregava 4619 pessoas, em 37 países, já a J. Warter Thompson tinha 1110 funcionários, somente na sede de Londres.

Os Estados Unidos tinham 46 agências atuando no exterior, com 382 filiais. Destas 21 agências em sociedade com britânicos, 20 com alemães ocidentais e 12 com franceses. No Brasil atuavam 15 agências, todas elas com instruções absolutamente claras de quem patrocinar.

Adolf Berle

No início dos anos 50, Henry Luce, do grupo Time-Life, já estava luxuosamente instalado em sua nova sede de 70 andares na área mais nobre de Manhattan, negócio imobiliário que fechou com Nelson Rockefeller e seu amigo Adolf Berle, embaixador americano no Brasil na época do primeiro golpe contra o presidente Getúlio Vargas.

Victor Civita

Luce mantinha fortes relações com os irmãos Cesar e Victor Civita, ítalo-americanos nascidos em Nova Iorque. Cesar foi para a Argentina em 1941 onde montou a Editorial Abril, como representante da companhia Walt Disney, já Victor, em 1950, chega ao Brasil e organiza a Editora Abril.

Victor Civita e seu filho Roberto Civita

Neste mesmo período seu filho, Roberto Civita, faz um estágio de um ano e meio na revista Time, sob a tutela de Luce e logo retorna para ajudar o pai. Poucos anos depois, o mercado editorial brasileiro está plenamente ocupado por centenas de publicações que cantavam em prosa e verso o american way of life.


Somente a Abril, financiada amplamente pelas grandes empresas americanas, edita diversas revistas: Claudia, Quatro Rodas, Capricho, Intervalo, Manequim, Transporte Moderno, Máquinas e Metais, Química e Derivados, Contigo, Noiva, Mickey, Pato Donald, Zé Carioca, Almanaque Tio Patinhas, a Bíblia Mais Bela do Mundo, além de diversos livros escolares.


Em 1957, uma Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara dos Deputados, comprova que O Estado de São Paulo, O Globo e Correio da Manhã foram remunerados pela publicidade estrangeira para moverem campanhas contra a nacionalização do   petróleo.



Em 1962, o grupo Time-Life encontra seu parceiro ideal para entrar de vez no principal ramo das comunicações, a Televisão. A recém-fundada TV Globo, de Roberto Marinho. Era uma estranha sociedade.


Roberto Marinho


O capital da Rede Globo era de 600 milhões de cruzeiros, pouco mais de 200 mil dólares, ao câmbio da época. O aporte dado “por empréstimo” pela Time-Life era de seis milhões de dólares e a empresa tinha um capital dez mil vezes maior.

 


João Calmon

Como denunciou o deputado João Calmon, presidente da Abert (Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão):“Trata-se de uma competição irresistível, porque além de receber oito bilhões de cruzeiros em doze meses, uma média de 700 milhões por mês, a TV Globo recebe do Grupo Time-Life três filmes de longa metragem por dia – por dia, repito… Só um ‘package’, um pacote de três filmes diários durante o ano todo, custa na melhor das hipóteses, dois milhões de dólares” (HERZ, p.220, 2009).

O Brasil e o mundo estão em efervescência. A tensão é crescente com revoluções vitoriosas na China e em Cuba. A luta pela independência e soberania das nações cresce em todos continentes e os EUA colocam em marcha golpes militares por todo o planeta. A Guerra Fria está em um ponto agudo.

É nesse quadro que a Comissão de Assuntos Estrangeiros do Congresso dos EUA, em abril de 1964, no relatório “Winning the Cold War. The O.S. Ideological Offensive” define: “Por muitos anos os poderes militar e econômico, utilizados separadamente ou em conjunto, serviram de pilares da diplomacia. Atualmente ainda desempenham esta função, mas o recente aumento da influência das massas populares sobre os governos, associado a uma maior consciência por parte dos líderes no que se refere às aspirações do povo, devido às revoluções concomitantes do século XX, criou uma nova dimensão para as operações de política externa. Certos objetivos dessa política podem ser colimados tratando-se diretamente com o povo dos países estrangeiros, em vez de tratar com seus governos. Através do uso de modernos instrumentos e técnicas de comunicação, pode-se hoje em dia atingir grupos numerosos ou influentes nas populações nacionais – para informá-los, influenciar-lhes as atitudes e, às vezes, talvez, até mesmo motivá-los para uma determinada linha de ação. Esses grupos, por sua vez, são capazes de exercer pressões notáveis e até mesmo decisivas sobre seus governos” (SCHILLER, p.23, 1976).

A ordem estava dada: “informar”, influenciar e motivar. A rede está montada, o financiamento definido.

O jornalista e grande nacionalista, Genival Rabelo, exatamente nesta hora, denuncia no jornal Tribuna da Imprensa do Rio de Janeiro: “Há, por trás do grupo (Abril), recursos econômicos de que não dispõem as editoras nacionais, porém muito mais importante do que isso está o apoio maciço que a indústria e as agências de publicidade americanas darão ao próximo lançamento do Sr. Victor Civita, a exemplo do que já fizeram com as suas 18 publicações em circulação, bem como as revistas do grupo norte-americano Vision Inc.” (RABELO, p.38, 1966)
Mas é necessário mais. É preciso enfraquecer, calar e quebrar tudo que seja contrário aos interesses dos monopólios, tudo que possa prejudicar os interesses das corporações. A General Eletric, General Motors, Ford, Standard Oil, DuPont, IBM, Dow Chemical, Monsanto, Motorola, Xerox, Jonhson & Jonhson e seus bancos J. P. Morgan, Citibank, Chase Manhattan precisam estar seguros para praticar sua concorrência desleal, para remeter lucros sem controle, para desnacionalizar as riquezas do país se apossando das reservas minerais.

Robert Sarnoff

Várias são as declarações, nesta época, que deixam claro qual o caminho traçado pelos EUA. Nas palavras de Robert Sarnoff, presidente da RCA – Radio Corporation of America – “a informação se tornará um artigo de primeira necessidade equivalente a energia no mundo econômico e haverá de funcionar como uma forma de moeda no comércio mundial, convertível em bens e serviços em toda parte” (SCHILLER, p.18, 1976).


Já a Comissão Federal de Comunicações (FCC), em informe conjunto dos Ministérios do Exterior, Justiça e Defesa, afirmava: “As telecomunicações evoluíram de suporte essencial de nossas atividades internacionais para ser também um instrumento de política externa” (SCHILLER, p.24, 1976).

George W. Ball

É esclarecedor o pensamento do delegado dos Estados Unidos nas Nações Unidas, vice-ministro das Relações Exteriores, George W. Ball, em pronunciamento na Associação Comercial de Nova Iorque: “Somente nos últimos vinte anos é que a empresa multinacional conseguiu plenamente seus direitos. Atualmente, os limites entre comércio e indústria nacionais e estrangeiros já não são muito claros em muitas empresas. Poucas coisas de maior esperança para o futuro do que a crescente determinação do empresariado americano de não mais considerar fronteiras nacionais como demarcação do horizonte de sua atividade empresarial” (SCHILLER, p.27, 1976).

 A ação desencadeada pelos interesses externos já havia produzido a falência de muitos órgãos de imprensa nacionais e, por outro lado, despertado a consciência de muitos brasileiros de como os monopólios utilizam seu poder de pressão e de chantagem.

 Marcus Pereira


Em 1963, o publicitário e jornalista Marcus Pereira afirmava em debate na TV Tupi, em São Paulo: “Em última análise, a questão envolve a velha e romântica tese da liberdade de imprensa, tão velha como a própria imprensa. Acontece que a imprensa precisa sobreviver, e, para isso, depende do anunciante. Quando esse anunciante é anônimo, pequeno e disperso não pode exercer pressão, por razões óbvias. É o caso das seções de ‘classificados’ dos jornais. Mas poucos jornais têm ‘classificados’ em quantidade expressiva. A maioria dos jornais e a totalidade das revistas vivem da publicidade comercial e industrial, dos chamados grandes anunciantes. Acho que posso parar por aqui, porque até para os menos afoitos já adivinharam a conclusão” (RABELO, p.56, 1966).

Não é difícil perceber o quanto a submissão aos interesses econômicos estrangeiros levou a dita “grande mídia” brasileira a se afastar da nação. A se tornar, ao longo dos anos, em uma peça chave da política do Imperialismo.

Em praticamente todos os principais momentos da vida nacional se inclinaram para o golpismo e a traição. Já no primeiro golpe contra Getúlio, depois, contra sua eleição, contra sua posse, contra a criação da Petrobrás, contra a eleição de Juscelino, contra João Goulart, contra as reformas de base, apoiando a Ditadura, apoiando a política econômica de Collor, apoiando Fernando Henrique e suas privatizações, atacando Lula.

Hoje, ela novamente tem lado: o das concessões de estradas, portos e aeroportos, o dos leilões de privatização do petróleo e da necessidade da elevação das taxas de juros, do controle do déficit público com evidentes restrições aos investimentos governamentais, ou seja, da aceitação de um neoliberalismo tardio.

Porque atuam desta forma?

Genival Rabelo deu a resposta: “Um industrial inteligente desta cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro me fez outro dia, esta observação, em forma de desafio: ‘Dou-lhe um doce, se nos últimos cinco anos você pegar uma edição de O Globo que não estampe na primeira página uma notícia qualquer da vida americana, dos feitos americanos, da indústria americana, do desenvolvimento científico americano, das vitórias e bombardeios americanos. A coisa é tão ostensiva que, muita vez, sem ter o que publicar sobre os Estados Unidos na primeira página, estando o espaço reservado para esse fim, o secretário do jornal abre manchete para a volta às aulas na cidade de Tampa, Miami, Los Angeles, Chicago ou Nova Iorque. Você não encontra a volta às aulas em Paris, Nice, Marselha, ou outra cidade qualquer da França, na primeira pagina de O Globo, porque, de fato, isso não interessa a ninguém. Logo, não pode deixar de haver dólar por trás de tudo isso…’ Outro amigo presente, no momento, e sendo homem de publicidade concluiu, deslumbrado com seu próprio achado: ‘É por isso que O Globo não aceita anúncio para a primeira página. Ela já está vendida. É isso. É isso!’. ‘E muito bem vendida, meu caro – arrematou o industrial – A peso de ouro’ ” (RABELO, p.258, 1966).


*Delegado à Conferência Nacional de Comunicação, Secretário Municipal de Comunicação em São Carlos entre 2007 e 2012 .

Monsenhor que trabalhava no Banco do Vaticano é preso

Monsenhor que trabalhava no Banco do Vaticano é preso

Enviado por luisnassif, dom, 30/06/2013 – 14:26

Por Adir Tavares

Vaticano: Monsenhor 500 e o IOR

Do portal Informação Incorrecta 

O Vaticano não consegue mesmo. Ontem foi preso Monsenhor Nunzio Scarano, junto com Giovanni Maria Zito (um ex-oficial da intelligence) e um intermediário financeiro, Giovanni Carenzio: preso no âmbito da investigação sobre o IOR, o banco da Santa Sé. Para todos: acusações de corrupção, fraude e difamação.

Esta é uma investigação complexa.
A história gira em torno de um acordo entre Scarano e Zito que visa o regresso de 20 milhões de Euros dos bancos da Suíça, como resultado de evasão fiscal, a bordo de um jato particular. Por este “serviço”, Zito receberia 400 mil Euros. Segundo as interceptação telefónicas, a actividade de importação ilegal de capitais teria sido feita em nome de Paolo Cesare e Maurizio D’Amico, empreendedores da Italia do Sul.

Carenzio, operador do mundo da finança (já indagado na Espanha por fraude e peculato), e na Suíça, era o administrador que guardava o dinheiro do D’Amico. Para transportar o dinheiro (inicialmente 40 milhões de Euros, em seguida reduzidos para 20), Monsenhor Scarano e Carenzio (os quais conheceram-se na Ordem de Constantino) decidiram explorar o potencial operacional do Zito para escapar dos controles. O Zito, portanto, alugou o avião particular com piloto apara retirar o dinheiro em Locarno (Suíça).

Mas algo correu mal: a deterioração das relações entre as partes envolvidas bloqueou a operação, que previa a seguir o transporte de dinheiro até a casa de Monsenhor Scarano. E é nesta altura que entram em cena os investigadores.

Monsenhor 500
Quem é Nunzio Scarano? É o Monsenhor que tinha sido investigado há duas semanas com a acusação de ter “reciclado” 560 mil Euros e que ontem ainda antes de ser preso, tinha sido suspenso do cargo de chefe do departamento de contabilidade analítica da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica). Numa entrevista perantes os microfones duma rádio privada, Scarano tinha-se defendido, negando qualquer envolvimento.

Vive em Roma, na Domus Internationalis Paulus VI, perto da Praça Navona. Antes de tomar os votos, há 26 anos, era um funcionário dum banco, mas no Vaticano trabalha no sector imobiliário. Como mencionado, o seu cargo era chefe de contabilidade analítica APSA, do IOR, que administra os milhares de propriedades que o Vaticano possui não apenas em Roma.

A alcunha dele é “Monsenhor 500”, pois Scarano costuma circular com um grande volume de notas de 500 Euros. E dinheiro é coisa que não lhe falta: ao longo dos anos adquiriu muitas casa de luxo entre Roma e Salerno (onde nasceu), casas que recheou com obra de artes de valor.


Casas e empresas. Uma destas, a imobiliária “Prima Luce”, é aquela que atraiu a atenção dos 
investigadores: constituída em 2007, é de propriedade do Monsenhor até passar para as mãos do primo dele, Domenico.

Mas os dois Scarano são também titulares de outras duas empresas imobiliárias: a Nuen Srl (constituída em Junho de 2012) e a Effigi Gnm (2006).

É investigando acerca destas empresas também que os juízes de Roma chegam a descobrir a verdade: Scarano mantém relações frequentes e próximas com D’Amico e das conversas parecem possível vislumbrar uma conta corrente conjunta entre os D’Amico e Scarano. É ele que assegurar as transacções financeiras graças à sua relação com o IOR.

Particularmente significativa é a conversa de 17 de Maio de 2012, entre Scarano e Giovanni Carenzio, que descreve o IOR como a única maneira para realizar transacções financeiras e bancárias seguras e rápidas, que evitem a legislação sobre a lavagem de dinheiro.

Na conversa, Carenzio diz ter recebido a promessa duma ajuda, mas não tem certeza acerca da disponibilidade imediata do montante e pergunta se Scarano pode adiantar dinheiro. Scarano diz que na manhã seguinte irá realizar uma transferência de 20 ou 30 mil Euros:
Scarano – Hoje envias-me as coordenadas, o Iban. Eu faço-te o depósito. Acerca de 20-30, alguma coisa assim, porque está a minha assinatura.
Carenzio – Desculpa, mas donde?
Scarano – Faço partir tudo do Vaticano porque é a única maneira rápida que tenho. Eu faço a assinatura do gerente geral, que gentilmente me traz esta pessoa, e é isso.As escutas mostram também os truques que o Monsenhor utilizava para fugir dos controles quando o assunto era o dinheiro. Geralmente, os milhões de Euro transformavam-se em “livros da enciclopédia.” 15 de Julho de 2012, na véspera da transferência de vinte milhões entre Suíça e Itália, há o telefonema entre Scarano e Zito para preparar os últimos detalhes:
Scarano – Eu acho que quanto mais livros trazes melhor é
Zito – Se consigo, dobro.
Scarano – Podes trazer 20/25 livros?
Zito – Aqueles com certeza
Scarano – Sim, é uma boa meta, entendes? Porque permite fazer um monte de coisas para nós
Zito – Aquele pediu-me para trazer o dobro, 40!Acerca dos factos, o Vaticano promete “máxima colaboração”.

O silêncio do Vaticano
O problema é mesmo este: a Santa Sé sempre promete a “máxima colaboração”, só que depois não colabora.

O caso Scarano não é o primeiro escândalo financeiro que atinge o Vaticano. São três as cartas rogatórias que os investigadores de Roma enviaram entre 2002 e 2008 para as autoridades judiciais da Santa Sé, passos necessários para reconstruir o fluxo de dinheiro entre máfia e IOR. Uma investigação surgida paralelamente ao processo sobre a morte de Roberto Calvi, o presidente do Banco Ambrosiano encontrado enforcado em Londres em Junho de 1982.

Os investigadores italianos solicitaram documentos bancários e documentos confidenciais relacionados com o passado mais turvo do “banco de Deus”: Calvi, Sindona, a falência do Banco Ambrosiano, os biliões de origem duvidosa escondido ao fisco e enviados para o estrangeiro sob a direção do arcebispo Paul Marcinkus. Apesar da “máxima colaboração”, as cartas rogatórias, ou seja, os pedidos de assistência judicial para realizar actos processuais fora do Vaticano, saltam de um escritório para outro no interior das muralhas do Estado da Igreja, sem resposta.

Um longo silêncio de dez anos, que levou o magistrado romano Luca Tescaroli, o principal investigador do caso Calvi, a escrever no passado 16 de Dezembro para o novo Ministro da Justiça, Paola Severino, para que seja directamente o governo italiano a tomar uma atitude perante a Igreja. Um problema diplomático para o governo, preso entre as necessidades de manter boas relações com o Vaticano, mas também enviar claros sinais para combater a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal.

Porque o facto da máfia ter escondido uma parte do seu capital no IOR é uma realidade jurídica bem fundamentada pelo Tribunal Criminal de Apelação de Roma, no seu acórdão de 07 de Maio de 2010. Como sentenciou na ocasião o Tribunal:
A máfia utilizava o Banco Ambrosiano [o banco de Roberto Calvi, ndt] e o IOR como um veículo para grandes operações de lavagem de dinheiro. O facto novo que surgiu foi que isso acontecia até no caso de Vito Ciancimino [Presidente da Câmara de Palermo, ligado à máfia  máfia, ndt] bem como de Giuseppe Calo [mafioso, ndt]”.O mesmo Massimo Ciancimino, filho de Vito, tem repetidamente confirmado as operações bancárias suspeitas e as relações com altos personalidades do IOR e o pai dele. As ligações entre o banco do Vaticano e a máfia estão além de qualquer dúvida, por isso as três cartas rogatórias nunca atendidas assumem um interesse investigativo particular.


Com a primeira carta, datada 28 de Novembro de 2002, o Ministério Público italiano pediu ao Vaticano para “verificar os fluxos de caixa no período 1976-1982” entre o IOR e um número de bancos italianos e estrangeiros, tais como o Banco di Sicilia, Banco Ambrosiano (escritórios italianos e estrangeiros), o suíço Gotthard e uma rede de empresas no Peru, Argentina, Bahamas, Nicarágua, Luxemburgo e Venezuela.

Não só isso, a carta pede também os dados das pessoas envolvidas: na prática, a Santa Sé deveria abrir a gaveta mantida selada ao longo de trinta anos e desvendar uma teia de actividades e financiamento do Instituto para as Obras de Religião, escondido durante anos atrás do status de “sujeito autónomo num estado fora da UE”, situação opaca para o fisco e fora das normas internacionais sobre os bancos.

Na segunda carta rogatória, de 23 de Janeiro de 2004, o juiz italiano pediu para visionar os “telex relativos a operações realizadas no estrangeiro por Calvi explorando as estruturas da Cidade do Vaticano”.

A última carta, a mais recente (20 de Novembro de 2008), tem como objectivo determinar se e quando as duas letras escritas por Calvi poucos dias antes da sua morte e dirigidas ao Papa João Paulo II e ao Cardeal Pietro Palazzini (na altura prefeito da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos) foram recebidos pelos destinatários. Cartas com conteúdo contraditório nas quais Calvi, assustado e desesperado, conta em detalhes algumas operações financeiras “embaraçosas”, realizadas por conta de prelados.

Todas perguntas que, até hoje, permanecem ser resposta dada a falta de colaboração da Santa Sé.

No dia 30 de Dezembro de 2010, o Papa Bento XVI promulgou a Lei 127, em vigor desde Abril deste ano, que condena a lavagem de dinheiro  e o financiamento ao terrorismo. O artigo 41 afirma que a recém-formada Autoridade de Informação Financeira pontifícia “troca informações sobre operações suspeitas e coopera com as autoridades de Estados estrangeiros que procuram com a mesma finalidade de prevenir e combater a lavagem de dinheiro”.
Pelo visto, isso em teoria.

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1 comentário
imagem de jns

dom, 30/06/2013 – 15:13

jns

Roberto Calvi

Banco Ambrosiano, Maçonaria e América Latina
Em 18 de junho de 1982, a ponte Blackfriars, em Londres, foi palco de um caso policial que pôs os maçons na linha de fogo. Uma horrível descoberta foi feita ao amanhecer: O corpo de um homem bem vestido foi encontrado enforcado sob a ponte. Tinha uma carteira com muito dinheiro, um passaporte falso, e os bolsos cheios de tijolos.  “As circunstancias são bem estranhas.”
Ruppert_Cornwell Roberto Calvi

Em 1982, o jornalista britânico Rupert Cornwell estava em Roma, trabalhando para o Financial Times. Ele soube que estava diante de um furo de reportagem quando o homem foi identificado como um banqueiro italiano de 62 anos, Roberto Calvi. “Quando Calvi foi encontrado, a reação foi de espanto, espanto nem tanto por ele estar morto,

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