VAIA REVELA APENAS A DESELEGÂNCIA DA ELITE

VAIA REVELA APENAS A DESELEGÂNCIA DA ELITE

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Nos próximos dias, grandes jornais e seus colunistas explorarão o tema ao máximo, para tentar provar que estão certos em suas críticas contra o governo Dilma; no entanto, o público presente no Mané Garrincha não era exatamente um retrato do povo brasileiro; ali, havia pessoas que se dispuseram a pagar R$ 280 pela entrada e outros tantos que receberam convites de patrocinadores e parceiros da festa; vaia começou contra Joseph Blatter, da Fifa, e depois atingiu a presidente por tabela, menos como retrato de alguma indignação social e mais como expressão de irreverência e até de falta de educação

 

16 DE JUNHO DE 2013 ÀS 10:01

 

247 – Manchete da Folha de S. Paulo: “Estreia do Brasil tem vaia a Dilma, feridos e presos”. Manchete do Globo: “Torneio começa com vaias a Dilma e vitória da seleção”. Nos próximos dias, a vaia contra a presidente Dilma Rousseff, ouvida no Estádio Nacional Mané Garrincha, ainda deverá ecoar nas colunas políticas e econômicas. Quer um palpite? Este será o tema de Ricardo Noblat, nesta segunda-feira, no Globo.

Mas será que ela tem realmente algum significado político? Nenhum.

Quem esteve no Estádio Nacional Mané Garrincha neste sábado pôde se dar conta de que a vaia contra Dilma foi quase acidental. Ela começou quando os alto-falantes anunciaram a presença do presidente da Fifa, Joseph Blatter. Dilma foi anunciada na sequência, pegando carona nas vaias a Blatter – que também eram inadequadas. Diante do barulho, ela pronunciou apenas uma frase: “Declaro oficialmente aberta a Copa das Confederações”. Blatter lamentou o incidente e pediu “fair play” ao povo brasileiro, quando foi novamente vaiado.

No Uol, Josias de Souza foi o primeiro colunista a comentar as vaias e sugeriu que a torcida talvez estivesse repleta de “Velhos do Restelo”, ironizando a presidente Dilma:

O Brasil, para ficar como Dilma Rousseff deseja, precisa trocar de torcida. Essa que compareceu ao Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é inteiramente inadequada. Uma legião de Velhos do Restelo. Vindo da Suíça, terra onde o leite já sai das vacas pasteurizado, o companheiro Joseph Blatter, da Fifa, ralhou: “Onde está o respeito, onde está o fair play?”. As vaias aumentaram.

Até o desafeto José Maria Marin, da CBF, tentou salvar a cena puxando uma salva depalmas. Os apupos prevaleceram. Bons tempos aqueles em que o futebol era o ópio do povo. Hoje, gasta-se R$ 1,2 bilhão num estádio para que ele seja usado como amplificador do pio do povo. Quanta ingratidão! O Planalto deveria considerar a hipótese de trocar a torcida brasileira por torcedores terceirizados vindos da Suíça de Blatter. São pessoas muito mais respeitosas. E que fair play!

Mas quem estava realmente no Mané Garrincha? Não exatamente um retrato do povo brasileiro. Ali havia dois tipos de torcedores. Os que se dispuseram a pagar R$ 280 por uma entrada e aqueles que foram convidados por patrocinadores ou parceiros da festa, que adquiriram ingressos junto à Fifa e os distribuíram a convidados vip. Em ambos os casos, representantes da elite.

Não exatamente o povo que se incomoda com a chamada inflação dos alimentos ou a alta de vinte centavos nas passagens de ônibus.

A despeito da vaia, quem foi o Mané Garrincha também se deu conta de que, pela primeira vez, o Brasil dispõe de equipamentos esportivos comparáveis aos do invejado Primeiro Mundo. A arena de Brasília nada deve aos melhores estádios do mundo – e, em muitos aspectos, os supera. O trabalho dos voluntários, que demonstraram extrema cortesia, foi também exemplar.

Quem foi ao estádio também pôde presenciar o renascimento da seleção brasileira e saiu com a certeza de que, aos poucos, o técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, faz brotar um time que tem tudo para ser vencedor.

Além disso, a chegada e a saída do estádio foram tranquilas, salvo um pequeno incidente com manifestantes que protestavam contra a realização da Copa, provando que Brasília, com seus espaços amplos, talvez seja a melhor sede da Copa e a mais adequada até para a abertura em 2014.

Numa festa grandiosa, não só pela seleção, mas pela própria estreia bem-sucedida da arena e de uma das principais sedes, a vaia foi apenas um “ponto fora da curva”, para usar uma expressão em voga atualmente.

Foi o retrato da irreverência, da deselegância e até da falta de educação de boa parte da elite brasileira.

Paciência. Brasília deu a primeira demonstração de que, em 2014, o Brasil realizará uma das melhores Copas do Mundo de todos os tempos. E com uma equipe à altura.

 

 
 

O MELHOR TEXTO DA SEMANA… PARA LER E COMPARTILHAR…

FALA, PROFESSOR!

 
Do Twitter do jornalista e professor Nilson Lage a leitura mais clara dos fatos da última semana:
1 – Grupos de rapazes de classe média, partidos universitários e esquerdas excluídas do poder planejam protestos urbanos. Normal, previsível.
2 – A infiltração de provocadores e a ação descabida da polícia ampliam incidentes que não mobilizam mais que 0,05% da população paulista.
3 – A esquerda robô formula e a direita esperta repete a tese de que há uma insatisfação genérica no país. A mídia estrangeira rejubila-se.
4 – A todos esses interessa esse quadro de desencanto popular: enfraquece posições externas e políticas internas que desagradam ao Império.
5 – No entanto, essa insatisfação não aparece em cifras, dados ou pesquisa de opinião. É uma distorção e um factoide.
E ainda:
600 pessoas “espalharam o caos” em Brasília contra a Copa que atraiu ao Estádio Nacional 67 mil espectadores.

Acrescento: “revolução”, “despertar do povo”… Menos, pessoal. O que ficou da “Primavera do Oriente” do início de 2011? Ou do Occupy Wall Street? Que mudanças estruturais promoveram? Não vi nenhuma, e me corrijam, por favor. É fato que em diversos cantos do mundo, hoje, a facilidade de mobilização pelas redes sociais viabiliza que manifestações saiam do mundo virtual e cheguem à ruas . Há este dado novo na esfera pública do mundo dito “pós-industrial”. É isto, apenas. Chegou a vez de São Paulo na tela do espetáculo globalizado, frenesi midiático, que já teve seu centro na Praça Tahrir do Cairo, depois em Wall Street, em NY, e capitais européias. Acontecem, bombam e passam, sem mudar nada. Importante se manifestar, ordeiramente. Dar no PT um susto de “voz rouca das ruas”, como dizia o dr. Ulysses Guimarães, ok. Pode fazer bem ao partido no poder se ele for capaz de assimilar. Não acredito que seja, embora pense que o ajudaria a não se tornar a coisa patética em que se transformou o PSDB que um dia foi de Mário Covas, seu primeiro presidente.

O quadro que vejo é esse. Ingenuidade de quem acredita que vai mudar o mundo com passeatas. E cinismo de quem capitaliza passeatas idealistas para a luta ideológica acirrada. Aos ingênuos, a condescendência preocupada de que não se tornem massa de manobra. Aos cínicos, o recado de que sobrevivem os que pensam com perspectiva histórica e se lembram de 1954, 1961 e 1964.