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EMPODERADOS E DESILUDIDOS

EMPODERADOS E DESILUDIDOS

Chico Cavalcante
CHICO CAVALCANTE18 DE JUNHO DE 2013 ÀS 18:34

Os milhares de manifestantes que marcharam ontem nas ruas de grandes metrópoles e hoje geram imenso tráfego de dados nas redes sociais não darão em lugar nenhum. Chegaram a um beco sem saída

 

Na contramão das análises apressadas e romantizadas, posso afirmar sem sombra de dúvidas que os milhares de manifestantes que marcharam ontem nas ruas de grandes metrópoles e hoje geram imenso tráfego de dados nas redes sociais não darão em lugar nenhum. Chegaram a um beco sem saída.

Não derrubarão governo algum, não indicarão um novo caminho, nem significam, em si, nenhuma mudança substancial no tecido político visível. Ao contrário do que pensa a ultra-esquerda retórica, os ventos da revolução proletária não sopram ao som do mar e à luz do céu profundo na pátria amada Brasil.

Toda a barulheira feita nas redes sociais que parecem contagiar a todos não chega nos grotões desse país melhor que surgiu a partir de 2003 e que está infenso a impressões de segunda mão, que indicam um país pior onde a realidade revela a melhoria dos indicadores sociais a começar pela renda e pelo trabalho.

A marcha dos empoderados pelos acertos de 10 anos de governo democrático e popular no Brasil encontrará o vazio depois da curva e refluirá como refluíram todos os movimentos recentes de igual ou maior magnitude em todo o mundo ocorridos onde as instituições eram sólidas, a democracia era estável e o governo não era totalitário, como é o caso do Brasil.

Nos Estados Unidos, mobilização similar um ano antes das eleições gerou análises apressadas que davam Obama como o virtual perdedor em seu intento de permanecer na Casa Branca. E isso não aconteceu. Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

O descaminho dessa multidão que parece caminhar para algum lugar e ruma para lugar algum tem a ver com a lógica interna desse tipo de movimento, baseada em pautas difusas, contraditórias até, e na ausência de direção política e organicidade, únicas formas de tornar uma mobilização constante ao ponto de produzir o efeito “água mole, pedra dura, tanto bate até que fura”.

Foram anos e anos de mobilização e enfrentamentos comandados pelo Conselho Nacional Africano que levaram ao fim da Apartheid. Foram anos e anos de mobilização e enfrentamento, inclusive armado, que enfraqueceram a ditadura no Brasil, no Chile e na Argentina.

Não é isso que está acontecendo aqui. Movidos mecanicamente por um sentimento de rebeldia sem causa definida, esses movimentos que começaram com demanda econômica (redução da tarifa do transporte urbano em São Paulo) e não evoluíram para uma pauta qualificada, têm sua origem profunda no desencanto, na desilusão política e na falta de perspectiva que contaminam a juventude nos dias atuais, imersa no poder aparente das redes sociais e na falta de espaço político nos partidos tradicionais.

Essa juventude está contaminada pelo discurso plantado de modo sistemático e recorrente pela Rede Globo, segundo o qual, vivemos no pior país do mundo, mal administrado, precário, aquele onde a corrupção sobrevive, já tendo sido exterminada em todas as outras paragens do planeta.

A percepção desfocada, gerada por uma leitura distorcida dos fatos, leva a uma ausência de pauta efetiva e unitária e este não é um fator menor na análise do cenário presente.

Afinal, todas as revoluções se fizeram em torno de uma consigna, de uma palavra de ordem que indicava ruptura; seja do status quo, seja fomentando a independência de uma colônia, pela distribuição de riqueza material e imaterial para os desvalidos, pela democracia política para os oprimidos ou mesmo pela autoafirmação nacional para nações submetidas aos ditames de outras nações.

Alguns analistas da hora comemoram o fato de que nenhuma legenda partidária conseguiu capitalizar a seu favor os protestos. Mas esse é justamente o primeiro sintoma de que esse movimento espontâneo não se tornará orgânico e, portanto, perene. Sem direção política, dispersará do mesmo modo que surgiu se a polícia – que no dia 17/06 no Rio foi submetida ao seu maior teste de paciência – não criar um mártir para a multidão chamar de seu.

A ideia tola de que seria Dilma Rousseff (PT) quem estaria na berlinda desses movimentos e que os beneficiários primeiros dessa onda de rebeldia seriam Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (ex-PV) e Eduardo Campos (PSB), carece de comprovação factual. A vaia que Dilma tomou em estádio de futebol apenas serve para provar uma antiga tese que defendo: políticos não devem comparecer a eventos esportivos, onde a ingestão de bebida alcoólica antecede as partidas e entorpece a razão.

Como carece de comprovação também que a pré-candidata à Presidência Marina Silva, que está organizando um partido estranhamente chamado de “Rede”, seria aquela cujo discurso mais se identifica com os manifestantes. Todos e nenhum dos discursos flertam com manifestantes, já que estes lutam contra o aborto e a favor do aborto simultaneamente.

A imprensa destaca como bandeira principal das mobilizações a luta “por um mundo melhor”. Mas isso não é uma pauta, mas sim uma evasiva ou, quando muito, verso de uma canção ruim. A rigor, todos querem um mundo melhor. Mas o mundo melhor dos nazistas não era o mundo melhor dos judeus. A perspectiva muda tudo.

Movimentos horizontais e espontâneos tendem a rejeitar lideranças tradicionais, mas são, também, incapazes de criar novos interlocutores e tendem a refluir ao limbo, como aconteceu com Occupy Wall Street, que depois de contagiar os Estados Unidos e o mundo refluiu para se tornar mais um objeto de estudo acadêmico.

Há, portanto, tendência nada desprezível de os protestos ficarem órfãos de pai e mãe ou, na pior das hipóteses, de serem adotados pela direita, já que movimentos como estes tendem mais para a retórica conservadora do que para a ruptura revolucionária  Golpes militares como o Brasil de 1964 no e de 1973 no Chile começaram com mobilizações de massas fomentadas pela CIA, calcadas em sentimentos reais de largos estratos sociais.

Também vale lembrar que, em 1988, vencida a ditadura, um difuso sentimento de insatisfação, similar ao atual, se espalhou pelo Brasil. As pessoas pareciam insatisfeitas com tudo, ainda mais com a hiperinflação – que agora não existe embora a mídia insista em reconstruí-la.

Naquele cenário cinzento emergiu um político nordestino desconhecido, jovem, de boa aparência, cuja proposta principal era combater a corrupção e os marajás. O simulacro Fernando Collor de Mello venceu a corrida ao Palácio do Planalto em 1989 com amplo apoio das ruas. Caiu em 1992 da mesma forma, fruto de descalabros e desmandos.

A desilusão é e sempre será má conselheira.

 

 

COMENTÁRIOS

13 comentários em “Empoderados e desiludidos”

  1. Henrique 18.06.2013 às 21:56

    Caros amigos e Chico Cavalcante, parabens pelo artigo, mas saiba de uma coisa, eu estive na manifestação de ontem no RJ, e uma coisa eu te falo, estamos exercendo nossa cidadania, coisa que não acontecia no Brasil há muito tempo e você melhor que ninguem sabe disso, que não dê em nada mas que fique o recado, ACABOU A SACANAGEM NO BRASIL!!!!!

  2. kson 18.06.2013 às 21:26

    Irretocável artigo!!

  3. Eduardo 18.06.2013 às 21:04

    Artigo perfeito ! Movimento de protesto baseado em uma legítima questão, mas que através desta foi arrebanhando outros com discursos difusos. Movimento sem liderança tem com os seus jovens anarquistas a ponta de lança para fazer toda a destruição possível até chegar em um momento da completa desilusão. Movimentos precisam de pauta, protesto e negociação, não de demonstrações de ódio desmedidas.

  4. Felsant – Fernando Argentin 18.06.2013 às 20:22

    Artigo preciso e reflexão coerente! Os atuais acontecimentos são importantes para EXIGIR de todos o exercício do esforço de raciocínio para avaliar de maneira sensata e justa os rumos políticos e sociais no Brasil. No entanto, há que se ter o devido cuidado contra o uso e abuso das práticas nefastas de DISTORÇÃO DA REALIDADE por parte daqueles que detêm o poder dos veículos tradicionais de informação de massa, é fato que distorções repetidas à exaustão assumem tonalidade de fato! Embora a globo, sobretudo no canal pago, tem tratado os atuais eventos com certa reserva (mais por receio da revolta contra seus profissionais e para preservar seu patrimônio) não se pode confiar em certas “instituições”! Por outro lado, cabe ao governo federal aprofundar suas políticas sociais! Aproveitar a oportunidade para implementar e avançar em políticas públicas que sejam pautadas pelos movimentos sociais, pois foram eles que forjaram os ideais do PT.

  5. Wilson Ribeiro 18.06.2013 às 20:17

    A analise definita sobre as manifestações.

  6. luiz 18.06.2013 às 20:12

    Adolfo 18.06.2013 às 19:59 Não tenho dúvida que seja mestre, Lulla é doutor, não é mesmo? Parece que você, assim como o Grande Líder, também não sabe ler!!!

  7. Rachel Vizoto 18.06.2013 às 20:06

    Lúcida e competente analise. Não conhecia o articulista e devo confessar a boa surpresa com argumentação tão corajosa e bem-estruturada. Um facho de luz em momento de tantas incertezas.

  8. Adolfo 18.06.2013 às 19:59

    Luiz, idiota é você que não conhece o autor do artigo. O professor Chico Cavalcante é mestre em comunicação e história contemporânea. É diretor da Associação Brasileira de Consultores Políticos e autor de 6 livros. Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por sua luta contra a ditadura. Essa intolerância ao debate é própria do fascismo. Os fascistas, como você, não toleram a opinião contrária. Aprende a ler, aprende a ouvir e aprende a calar quando o argumento do outro é melhor fundamentado que o teu, imbecil. Aliás, idiota, houve sim movimento armado contra a ditadura. Você sabe ler em português, babaca?

  9. luiz 18.06.2013 às 19:50

    Este idiota não conhece nem o passado recente do Brasil, como vai querer escrever sobre o seu futuro? Não foi nenhum movimento armado que derrubou ou enfraqueceu a ditadura, pelo contrário, a ditadura exterminou todos os movimentos armados, matando quase a totalidade de seus membros ou exilando aqueles poucos que foram poupados. A ditadura terminou no dia e na hora marcada exatamente como planejado por Geisel e Golbery, 10 anos antes! Quando as pessoas estavam insatisfeitas com a hiperinflação ao fim dos 80, surgiu um político nordestino, jovem e desconhecido para romper com o establishment, mas era Lula, derrotado por um político jovem, integrante da elite coronelista nordestina e comprometido até os ossos com status quo, Collor. Quem não conhece o seu passado, nunca saberá do seu futuro!!

  10. Tereza Batista 18.06.2013 às 19:45

    Não foi com o objetivo de derrubar governo algum que 84% dos apartidários nas ruas do MPL se manisfestaram. Pelo voto manipulado ele entrou, e pelo voto livre, não obrigatório, ele deve sair ou ficar. É muito cedo para fazer qualquer prognósticos dos desdobramentos desse movimento que toma conta do Brasil e do Exterior. Neste preciso ponto da história do Brasil, parece haver uma quebra substancial da mentalidade de curral. Claro, isso não impede que historiadores, sociólogos, jornalistas, partidários não do sistema político partidário eleitoral espúrio manisfestem suas vontades inconscientes fundamentadas nas doutrinas difusas do sistema. Contudo, fazia tempo que o povo não manifestava as suas. E, confesso, agora, não tenho mais receio do Brasil.