Monsenhor que trabalhava no Banco do Vaticano é preso

Monsenhor que trabalhava no Banco do Vaticano é preso

Enviado por luisnassif, dom, 30/06/2013 – 14:26

Por Adir Tavares

Vaticano: Monsenhor 500 e o IOR

Do portal Informação Incorrecta 

O Vaticano não consegue mesmo. Ontem foi preso Monsenhor Nunzio Scarano, junto com Giovanni Maria Zito (um ex-oficial da intelligence) e um intermediário financeiro, Giovanni Carenzio: preso no âmbito da investigação sobre o IOR, o banco da Santa Sé. Para todos: acusações de corrupção, fraude e difamação.

Esta é uma investigação complexa.
A história gira em torno de um acordo entre Scarano e Zito que visa o regresso de 20 milhões de Euros dos bancos da Suíça, como resultado de evasão fiscal, a bordo de um jato particular. Por este “serviço”, Zito receberia 400 mil Euros. Segundo as interceptação telefónicas, a actividade de importação ilegal de capitais teria sido feita em nome de Paolo Cesare e Maurizio D’Amico, empreendedores da Italia do Sul.

Carenzio, operador do mundo da finança (já indagado na Espanha por fraude e peculato), e na Suíça, era o administrador que guardava o dinheiro do D’Amico. Para transportar o dinheiro (inicialmente 40 milhões de Euros, em seguida reduzidos para 20), Monsenhor Scarano e Carenzio (os quais conheceram-se na Ordem de Constantino) decidiram explorar o potencial operacional do Zito para escapar dos controles. O Zito, portanto, alugou o avião particular com piloto apara retirar o dinheiro em Locarno (Suíça).

Mas algo correu mal: a deterioração das relações entre as partes envolvidas bloqueou a operação, que previa a seguir o transporte de dinheiro até a casa de Monsenhor Scarano. E é nesta altura que entram em cena os investigadores.

Monsenhor 500
Quem é Nunzio Scarano? É o Monsenhor que tinha sido investigado há duas semanas com a acusação de ter “reciclado” 560 mil Euros e que ontem ainda antes de ser preso, tinha sido suspenso do cargo de chefe do departamento de contabilidade analítica da Administração do Patrimônio da Sé Apostólica). Numa entrevista perantes os microfones duma rádio privada, Scarano tinha-se defendido, negando qualquer envolvimento.

Vive em Roma, na Domus Internationalis Paulus VI, perto da Praça Navona. Antes de tomar os votos, há 26 anos, era um funcionário dum banco, mas no Vaticano trabalha no sector imobiliário. Como mencionado, o seu cargo era chefe de contabilidade analítica APSA, do IOR, que administra os milhares de propriedades que o Vaticano possui não apenas em Roma.

A alcunha dele é “Monsenhor 500”, pois Scarano costuma circular com um grande volume de notas de 500 Euros. E dinheiro é coisa que não lhe falta: ao longo dos anos adquiriu muitas casa de luxo entre Roma e Salerno (onde nasceu), casas que recheou com obra de artes de valor.


Casas e empresas. Uma destas, a imobiliária “Prima Luce”, é aquela que atraiu a atenção dos 
investigadores: constituída em 2007, é de propriedade do Monsenhor até passar para as mãos do primo dele, Domenico.

Mas os dois Scarano são também titulares de outras duas empresas imobiliárias: a Nuen Srl (constituída em Junho de 2012) e a Effigi Gnm (2006).

É investigando acerca destas empresas também que os juízes de Roma chegam a descobrir a verdade: Scarano mantém relações frequentes e próximas com D’Amico e das conversas parecem possível vislumbrar uma conta corrente conjunta entre os D’Amico e Scarano. É ele que assegurar as transacções financeiras graças à sua relação com o IOR.

Particularmente significativa é a conversa de 17 de Maio de 2012, entre Scarano e Giovanni Carenzio, que descreve o IOR como a única maneira para realizar transacções financeiras e bancárias seguras e rápidas, que evitem a legislação sobre a lavagem de dinheiro.

Na conversa, Carenzio diz ter recebido a promessa duma ajuda, mas não tem certeza acerca da disponibilidade imediata do montante e pergunta se Scarano pode adiantar dinheiro. Scarano diz que na manhã seguinte irá realizar uma transferência de 20 ou 30 mil Euros:
Scarano – Hoje envias-me as coordenadas, o Iban. Eu faço-te o depósito. Acerca de 20-30, alguma coisa assim, porque está a minha assinatura.
Carenzio – Desculpa, mas donde?
Scarano – Faço partir tudo do Vaticano porque é a única maneira rápida que tenho. Eu faço a assinatura do gerente geral, que gentilmente me traz esta pessoa, e é isso.As escutas mostram também os truques que o Monsenhor utilizava para fugir dos controles quando o assunto era o dinheiro. Geralmente, os milhões de Euro transformavam-se em “livros da enciclopédia.” 15 de Julho de 2012, na véspera da transferência de vinte milhões entre Suíça e Itália, há o telefonema entre Scarano e Zito para preparar os últimos detalhes:
Scarano – Eu acho que quanto mais livros trazes melhor é
Zito – Se consigo, dobro.
Scarano – Podes trazer 20/25 livros?
Zito – Aqueles com certeza
Scarano – Sim, é uma boa meta, entendes? Porque permite fazer um monte de coisas para nós
Zito – Aquele pediu-me para trazer o dobro, 40!Acerca dos factos, o Vaticano promete “máxima colaboração”.

O silêncio do Vaticano
O problema é mesmo este: a Santa Sé sempre promete a “máxima colaboração”, só que depois não colabora.

O caso Scarano não é o primeiro escândalo financeiro que atinge o Vaticano. São três as cartas rogatórias que os investigadores de Roma enviaram entre 2002 e 2008 para as autoridades judiciais da Santa Sé, passos necessários para reconstruir o fluxo de dinheiro entre máfia e IOR. Uma investigação surgida paralelamente ao processo sobre a morte de Roberto Calvi, o presidente do Banco Ambrosiano encontrado enforcado em Londres em Junho de 1982.

Os investigadores italianos solicitaram documentos bancários e documentos confidenciais relacionados com o passado mais turvo do “banco de Deus”: Calvi, Sindona, a falência do Banco Ambrosiano, os biliões de origem duvidosa escondido ao fisco e enviados para o estrangeiro sob a direção do arcebispo Paul Marcinkus. Apesar da “máxima colaboração”, as cartas rogatórias, ou seja, os pedidos de assistência judicial para realizar actos processuais fora do Vaticano, saltam de um escritório para outro no interior das muralhas do Estado da Igreja, sem resposta.

Um longo silêncio de dez anos, que levou o magistrado romano Luca Tescaroli, o principal investigador do caso Calvi, a escrever no passado 16 de Dezembro para o novo Ministro da Justiça, Paola Severino, para que seja directamente o governo italiano a tomar uma atitude perante a Igreja. Um problema diplomático para o governo, preso entre as necessidades de manter boas relações com o Vaticano, mas também enviar claros sinais para combater a lavagem de dinheiro e a evasão fiscal.

Porque o facto da máfia ter escondido uma parte do seu capital no IOR é uma realidade jurídica bem fundamentada pelo Tribunal Criminal de Apelação de Roma, no seu acórdão de 07 de Maio de 2010. Como sentenciou na ocasião o Tribunal:
A máfia utilizava o Banco Ambrosiano [o banco de Roberto Calvi, ndt] e o IOR como um veículo para grandes operações de lavagem de dinheiro. O facto novo que surgiu foi que isso acontecia até no caso de Vito Ciancimino [Presidente da Câmara de Palermo, ligado à máfia  máfia, ndt] bem como de Giuseppe Calo [mafioso, ndt]”.O mesmo Massimo Ciancimino, filho de Vito, tem repetidamente confirmado as operações bancárias suspeitas e as relações com altos personalidades do IOR e o pai dele. As ligações entre o banco do Vaticano e a máfia estão além de qualquer dúvida, por isso as três cartas rogatórias nunca atendidas assumem um interesse investigativo particular.


Com a primeira carta, datada 28 de Novembro de 2002, o Ministério Público italiano pediu ao Vaticano para “verificar os fluxos de caixa no período 1976-1982” entre o IOR e um número de bancos italianos e estrangeiros, tais como o Banco di Sicilia, Banco Ambrosiano (escritórios italianos e estrangeiros), o suíço Gotthard e uma rede de empresas no Peru, Argentina, Bahamas, Nicarágua, Luxemburgo e Venezuela.

Não só isso, a carta pede também os dados das pessoas envolvidas: na prática, a Santa Sé deveria abrir a gaveta mantida selada ao longo de trinta anos e desvendar uma teia de actividades e financiamento do Instituto para as Obras de Religião, escondido durante anos atrás do status de “sujeito autónomo num estado fora da UE”, situação opaca para o fisco e fora das normas internacionais sobre os bancos.

Na segunda carta rogatória, de 23 de Janeiro de 2004, o juiz italiano pediu para visionar os “telex relativos a operações realizadas no estrangeiro por Calvi explorando as estruturas da Cidade do Vaticano”.

A última carta, a mais recente (20 de Novembro de 2008), tem como objectivo determinar se e quando as duas letras escritas por Calvi poucos dias antes da sua morte e dirigidas ao Papa João Paulo II e ao Cardeal Pietro Palazzini (na altura prefeito da Sagrada Congregação para as Causas dos Santos) foram recebidos pelos destinatários. Cartas com conteúdo contraditório nas quais Calvi, assustado e desesperado, conta em detalhes algumas operações financeiras “embaraçosas”, realizadas por conta de prelados.

Todas perguntas que, até hoje, permanecem ser resposta dada a falta de colaboração da Santa Sé.

No dia 30 de Dezembro de 2010, o Papa Bento XVI promulgou a Lei 127, em vigor desde Abril deste ano, que condena a lavagem de dinheiro  e o financiamento ao terrorismo. O artigo 41 afirma que a recém-formada Autoridade de Informação Financeira pontifícia “troca informações sobre operações suspeitas e coopera com as autoridades de Estados estrangeiros que procuram com a mesma finalidade de prevenir e combater a lavagem de dinheiro”.
Pelo visto, isso em teoria.

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1 comentário
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dom, 30/06/2013 – 15:13

jns

Roberto Calvi

Banco Ambrosiano, Maçonaria e América Latina
Em 18 de junho de 1982, a ponte Blackfriars, em Londres, foi palco de um caso policial que pôs os maçons na linha de fogo. Uma horrível descoberta foi feita ao amanhecer: O corpo de um homem bem vestido foi encontrado enforcado sob a ponte. Tinha uma carteira com muito dinheiro, um passaporte falso, e os bolsos cheios de tijolos.  “As circunstancias são bem estranhas.”
Ruppert_Cornwell Roberto Calvi

Em 1982, o jornalista britânico Rupert Cornwell estava em Roma, trabalhando para o Financial Times. Ele soube que estava diante de um furo de reportagem quando o homem foi identificado como um banqueiro italiano de 62 anos, Roberto Calvi. “Quando Calvi foi encontrado, a reação foi de espanto, espanto nem tanto por ele estar morto,

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