Florianópolis, poluída por esgoto, dissimulação e ódio de nordestinos. Por Aline Torres

  Florianópolis é uma das cidades mais bonitas do Brasil. Tem praias de mar gelado e bravio, outras de águas mansa, cachoeiras escondidas por montanhas, trilhas pela Mata Atlântica, onde na primavera florescem os guarapuvus, árvores símbolo. Tanta exuberância vira isca para os turistas. A capital de Santa Catarina recebe em média 1,5 milhão de pessoas no verão. A alta procura favoreceu a vitória no prêmio Viagem e Turismo, da Editora Abril, como “a melhor cidade de praia do país”, divulgado no final do ano passado. E a fama não é apenas nacional. O Ministério do Turismo publicou que o município está entre os três destinos mais visitados por estrangeiros. O Norte da Ilha é reduto de argentinos e uruguaios. Na Lagoa da Conceição estão os europeus e norte-americanos, fisgados pela badalação e pelo surfe. No Tripadvisor, Florianópolis aparece em 4° lugar nas buscas. A descrição no site internacional acentua a visão comum “É um destino cada vez mais procurado devido às suas praias perfeitas, os frutos do mar deliciosos e a combinação de uma cidade grande e moderna com fortificações coloniais”. Mas o que os turistas não sabem, e as autoridades fingem não saber, é que Florianópolis é uma cidade poluída. Das 42 praias da Ilha, 30 estão contaminadas, ao menos em algum ponto. A realidade oposta à publicidade tem provocado protestos. No dia 18, cerca de cem jovens argentinos caminharam pelas areias de Canasvieiras gritando “Vamos lutar pela nossa praia!”. Não foram ouvidos. Os outros hermanos estão cancelando as diárias desde que descobriram que a epidemia de virose pode ter relação com o esgoto jogado a céu aberto. Em um extremo da praia fica o Riacho Beatriz, assoreado e alvo de ligações clandestinas; do outro, o Rio do Brás, contaminado pela Casan (Companhia Catarinense de Água e Saneamento), órgão responsável pelo tratamento dos dejetos, mas que por ineficiência os despeja no mar. No centro desse cenário de descaso estão os banhistas. Mascarados. Segundo a coordenação da Unidade de Pronto Atendimento do Norte da Ilha, desde o dia 7 foram atendidas mais de mil pessoas com diarreia, dor abdominal, febre e vômito. A Dive (Diretoria de Vigilância Epidemiológica) informou que 70% dos infectados frequentaram praias do Norte da Ilha. Na contramão, a Prefeitura de Florianópolis divulgou que 80% dos casos de virose não têm relação com o mar. O motivo seria a má alimentação. O presidente do Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Florianópolis, Tarcísio Schmidt culpou os nordestinos. Em entrevista à Rádio Gaúcha, disse que a poluição não é tão grave, que as pessoas exageram, e que o problema é o queijo coalho vendido pelos migrantes. “Eles vendem esses negócios. Vai saber se está limpo. Eu na praia só como picolé”, disse. Porém, não é o cheiro do queijo que faz os turistas usarem máscaras em Canasvieiras. Essa foi a solução encontrado contra o fedor de esgoto. Enquanto empresários e moradores do bairro protestam por saneamento, para que a qualidade da vida e dos negócios seja mantida, o secretário estadual de Turismo Filipe Mello afirma que essa é a melhor temporada dos últimos anos. Ele disse que não há motivo para insatisfação, já que há outras praias além de Florianópolis. Esqueceu que uma a cada três de Santa Catarina, analisadas pela Fatma, também estão degradadas. Uma mancha escura no Rio Perequê, em Porto Belo, pode interditar as cidades da Costa Esmeralda- Bombinhas, Porto Belo e Itapema. E nesse mar de sujeiras os principais envolvidos são órgãos vinculados ao governo. A Fatma é alvo de ações do Ministério Público Estadual por liberar a ampliação da estação de tratamento da Casan, em Canasvieiras, sem qualquer estudo de impacto ambiental. E ignorando o relatório entregue pelo ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade). As pesquisas dizem que o vazamento de esgoto não atinge apenas as praias, mas o Rio Papaquara, que deságua na Estação Carijós, uma das maiores reservas ambientais do Estado, cujos cursos d’água estão conectados com a principal bacia hidrográfica de Santa Catarina, a do Rio Ratones, que por conseqüência polui a Baía Norte, tão contaminada quanto a Baía Sul. Nessas fazendas submersas crescem as maiores produções de ostras e berbigões do Brasil. Banhados por águas infectadas, os alimentos são importados, inclusive, para o Nordeste.  

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