O cotidiano em Nottingham, a cidade mais pobre da Inglaterra

O cotidiano em Nottingham, a cidade mais pobre da Inglaterra

Enviado por luisnassif, qua, 05/06/2013 – 14:02

Por Demarchi

Da BBC Brasil

Agiotas e pijamas fazem o dia a dia da cidade mais pobre do Reino Unido

Muitos associam a cidade de Nottingham, no centro da Inglaterra, à lenda de Robin Hood, o arqueiro infalível que assaltava os ricos que passavam pelos bosques ao norte da cidade para dar o dinheiro roubado aos pobres. Ou, ainda, ao romance O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, que retrata a região.

No entanto, Nottingham tem ultimamente ganhado notoriedade na Grã-Bretanha por um outro motivo: segundo os dados mais recentes do Escritório Nacional de Estatísticas do país, os moradores de Nottingham tem a menor renda líquida, descontados os impostos, de todo o país.

A renda média anual das pessoas na Grã-Bretanha, incluindo-se aí os benefícios sociais, é de 16.034 libras (cerca de R$ 52.152). Em Nottingham é de 10.834 libras (aproximadamente R$ 35.238).

Um dos locais onde a realidade de pobreza de Nottingham pode melhor ser vista é o bairro de Meadows, ao sul do centro, onde proliferam conjuntos habitacionais para pessoas de baixa renda.

Desespero

Não é surpreendente que a área de habitações populares seja um território fértil para ação de agiotas. Em Meadows, eles são os melhores amigos das pessoas na vizinhança.

Sharon Mills, do Meadows Partnership Trust, uma organização financiada pelo governo que oferece ajuda aos residentes daquela área, explica o porquê.

“Se você está desesperado com os filhos que não comem há três dias e alguém bate à sua porta oferecendo um empréstimo, ele é visto como um Messias”, disse.

Mills descreve essas pessoas como uma verdadeira “alcateia”, dispostas a recorrer à intimidação para recuperarem seu dinheiro.

“Eles sabem até mesmo o dia em que as pessoas recebem seus salários e assim vem literalmente botando a porta a baixo em alguns casos”.

Às três da tarde de pijama

Muito pouca gente no bairro pode se dar ao luxo de ter algum divertimento.

Ao longo dos anos, Meadows tem ganhado uma reputação de ambiente violento devido à presença de drogas e álcool.

Porém, mais que isso, o que parece ser uma mais constante é a falta de dinheiro dos moradores.

“Veja, são três da tarde e você vê gente por todo lado de pijama. Isso é uma desolação”, afirmou Rachael Oldfield, uma mãe solteira de 35 anos que trabalha meio período como auxiliar administrativa.

Rachael conta que seus momentos mais difíceis são quando chega o dia do pagamento.

“Sempre estou esperando por este momento, planejando me divertir, sair para jantar com amigos. Porém, tenho que cancelar os planos, porque senão gasto todo meu dinheiro.”

Sonhando com o sol

Rachael recebe seu salário no final do mês. No início do mês seguinte já não tem quase nada: seu pagamento se foi para pagar todas as contas. Ela sobrevive com aproximadamente 140 libras (cerca de R$ 455) em benefícios pagos pelo governo, o que é garantido pelos impostos que paga. Além disso, recebe outras 134 libras (aproximadamente R$ 435) como benefício para os filhos.

Ela deve 2,5 mil libras (pouco mais de R$ 8,1 mil) em contas de água e luz, que está pagando aos poucos.

Ainda assim, Rachael não se considera uma pessoa sem sorte. Sua filha vai bem na escola e seu filho joga futebol.

Outro sinal evidente da pobreza em Meadows está na escassez de qualquer tipo de luxo.

Adbul Haq sofre de diabetes e artrite e sobrevive com a pensão do governo por invalidez. Sonha como muitos outros em viajar para outros lugares.

“Não saio de férias há seis anos. Adoraria ir a algum lugar quente, mas não é possível.”

Esperança

Recentemente foi inaugurado um banco de comida que ajuda as necessidades básicas dos mais pobres. O resultado da ação diminuiu os roubos de pão e leite nos supermercados.

Mas nem todos são otimistas. David Gretton, que trabalha em um órgão do governo que oferece aconselhamento aos moradores do bairro, teme o impacto dos cortes nos benefícios sociais que o governo autorizou mês passado.

“Em três ou quatro meses vamos ver mais oficiais de justiça, porque as pessoas deixaram de pagar impostos”, lamenta Gretton.

Sharon Milles crê que os cortes de benefícios deste ano tornarão a vida dos residentes de Meadows ainda mais dura.

Ainda assim, o bairro consegue pequenos espaços de esperança. Em um centro comercial da área pode se ver um cartaz gigante que informa que Meadows é finalista de um concurso nacional de horticultura.

Se as plantas se demonstrarem tão resistentes como os residentes do bairro, seguramente Meadows levará o primeiro lugar.

Os pobres voltam à pauta

Os pobres voltam à pauta

Por Luciano Martins Costa em 27/05/2013 na edição 747

Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 27/5/2013

 

Folha de S.Paulo e o Globo trazem em suas edições de segunda-feira (27/5) duas reportagens que rompem, de certa maneira, o longo silêncio da imprensa sobre as mudanças que vêm ocorrendo no perfil demográfico e de renda da sociedade brasileira por conta dos programas sociais.

O jornal paulista apresenta um olhar crítico, observando que a renda dos mais pobres subiu no atual governo, mas essa população ainda sofre em condições de vida inaceitáveis. O jornal carioca faz uma abordagem mais otimista, analisando a melhoria das oportunidades de emprego e renda dos negros no Brasil.

Folha usa o Índice de Desenvolvimento da Família, criado pelo próprio governo para detalhar o acompanhamento de resultados dos programas de distribuição de renda, para mostrar que o programa Brasil sem Miséria não resolve completamente o desafio da pobreza extrema. O interesse manifesto pelo jornal é mostrar que “o governo Dilma Rousseff melhorou a renda dos pobres, mas não solucionou seus níveis miseráveis de acesso a emprego e educação”.

O diário paulista cumpre seu papel ao cobrar uma solução completa para o problema social, mas erra ao confundir um programa emergencial de combate à miséria com a questão mais ampla da redução de diferenças sociais.

Embora a pauta devesse levar em conta que o aumento da renda é apenas o ponto inicial de alavancagem da mobilidade social, que se completa com outras medidas, como aconteceu nos primeiros anos do Bolsa Família, é interessante observar como essa questão começa a frequentar as preocupações da imprensa sobre as condições de vida dos brasileiros mais pobres.

Na história do jornalismo brasileiro, o ponto alto das reportagens de cunho social já tem mais de 50 anos e aconteceu em 1960, quando o repórter Audálio Dantas descobriu os diários da catadora de papéis Carolina Maria de Jesus. Curiosamente, aquela reportagem de Dantas também foi publicada originalmente na Folha de S.Paulo, mas não tratava de índices oficiais de pobreza: o repórter simplesmente deu voz à mulher favelada e depois transformou seu caderno de anotações em livro de sucesso internacional, traduzido para mais de dez idiomas.

Desde então, o desafio da miséria frequentou a imprensa nas duas décadas seguintes, principalmente por conta dos movimentos populares apoiados pela igreja católica, mas o tema simplesmente desapareceu das páginas dos jornais no início deste século, substituído pela pauta da violência.

Dívida social

Os indicadores surpreendentes da ascensão de uma nova classe de renda média, que praticamente sustenta a economia brasileira, demoraram a ser assumidos pela imprensa. Já faz dez anos que se iniciou esse processo, marcado pela consolidação de programas sociais de transferência condicional de renda, e há muitos indicadores a serem analisados.

Globo aborda, na segunda-feira (27), uma década de queda na desigualdade étnica, mostrando como cresce a taxa de emprego e renda dos negros, e de como esse grupo étnico passa a ter uma presença maior entre os empregadores.

Uma das fontes da reportagem é um estudo do economista Marcelo Paixão sobre empreendedores negros. Embora persistam importantes desigualdades étnicas e de gênero, ele constatou que a proporção de negros entre os empregadores aumentou de 22,84% em 2003 para 30,19%, em 2013. Entre as mulheres negras, que historicamente encontram maior dificuldade de inserção no mercado de trabalho, o desemprego caiu de 18,2% para 7,7%, no mesmo período. Essa nova circunstância é acompanhada pelo aumento da escolaridade entre negros e pardos, o que acrescenta aos índices de renda o fator positivo da autoestima.

O novo perfil da população negra acompanha o fenômeno da mobilidade social e revela alguns pontos interessantes do processo gradativo de redução das desigualdades. Os brasileiros que se declaram negros ou pardos somam 100,5 milhões de pessoas, ou 51% da população total do Brasil. Desse total, 50% está na classe média de renda, 39% ainda são considerados pobres e apenas 11% alcançaram a classe de renda alta.

Levando-se em conta que, entre os não negros, 52% são de classe média, 29% estão na classe de renda alta e apenas 19% são considerados pobres, pode-se constatar com facilidade que as diferenças sociais ainda têm um forte componente étnico.

Embora as duas reportagens ainda contenham poucos elementos para um retrato completo das mudanças que têm ocorrido no Brasil, é importante que a imprensa registre alguns aspectos desse processo, ainda que a intenção implícita, como no caso da Folha, seja de fazer restrições aos programas sociais.

Para o leitor atento, o importante é constatar que os programas de transferência de renda funcionam e que as políticas de cotas são uma forma eficiente de ajustar parte da dívida social que o Brasil tem consigo mesmo.