BRILHANTE TEXTO!!!

Por Rosa Luxe 
Esse texto é para você que estava com o movimento Passe Livre São Paulo desde o começo. Ele é especialmente pra você que, antes mesmo do primeiro “não é por 20 centavos”, já apoiava porque compreendia que, SIM, o protesto era para que 20 centavos não fossem mantidos a mais na tarifa do transporte “público”. Quando a mídia conservadora dizia que era sem sentido, que não valíamos nem 20 centavos, que era tudo baderna e vandalismo… e você já apoiava.

É triste ver um movimento que luta para destruir valores conservadores sendo sufocado por causas sem sentido e sem pauta. Ontem assistimos os protestos sendo tomados por pessoas que não possuem a mínima idéia do que é protestar, acham que sentar e cantar o hino nacional, sem exigência alguma para se fazer ao governo, é um “protesto”. Vi pessoas no twitter questionando essas pautas, perguntando: “Qual é a demanda de vocês? Quando os protestos vão parar? O que o governo de São Paulo (e de outros estados) tem que fazer para que o povo pare os protestos?” e ninguém respondia nada que fizesse sentido. 

A verdade é que há uma massa conservadora se juntando aos protestos e infelizmente não estou falando só de Jabor, Pondé, Azevedo, Veja, UOL e cia. Esses grandes ícones do conservadorismo brasileiro se juntaram a causa e ISSO POR SI SÓ já deveria ser motivo para que todo mundo fizesse uma reflexão profunda e não caísse nas armadilhas, mas infelizmente há algo pior: pessoas com idéias anti-humanistas, pedindo que “bandidos” sejam espancados, falando contra programas como o Bolsa Família, não aceitando a participação de pessoas LGBT e até mesmo batendo em mulheres que portavam bandeiras de partidos. Essas pessoas não sabem o que é protestar, não fazem realmente a mínima idéia. Acham que o Brasil “acordou”, quando milhares de movimentos por todo o país já tomam as ruas e protestam e são chamados de desocupados, vagabundos, gayzistas, esquerdopatas, feminazis e tantos outros termos pejorativos.

Geraldo Alckmin enganou a todos os novos adeptos, que caíram como patinhos. Disse que não haveria polícia, que tinham CONVICÇÃO. Ora, por que tanta certeza? Acredito que essa certeza vem do fato de que ele e seus capangas midiáticos reconheceram a distinção entre os grupos. Enquanto a juventude sem pauta falando contra corrupção estava na Paulista cantando o hino nacional, tinha gente apanhando no Palácio dos Bandeirantes. Muita gente que tem idéias de esquerda chegou deslumbrado da Paulista dizendo que tinha sido tudo paz, tudo lindo, totalmente ludibriados e incapazes de enxergar além do óbvio. A falta de experiência e de vontade de aprender sobre o que é protestos nas ruas leva a criminalização de quem tenta invadir prédios do governo ou se revolta pichando frases nos õnibus e muros (frases essas que são quase um desabafo de um povo massacrado pela força do capital). 

Eu não me achava uma esquerdista das mais assertivas, tinha até meus momentos de baixar a guarda e não falar contra o capitalismo a cada segundo, mas diante disso tudo sou capaz de reconhecer a minha coerência e com a consciência tranquila posso afirmar que não estou sendo massa de manobra de Alckmin, Haddad, Globo, UOL, Folha, Jabor, Pondé, Azevedo ou outros grupos e pessoas que tentam transformar o assunto em uma enorme manifestação no estilo “Cansei” e “Dia do Basta”.

É frustrante ver que essas pessoas CONCORDAM COM A MÍDIA quando criminalizam movimentos que fazem barricadas para atrasar o Choque (e vocês já viram que o Choque só quer surrar e agredir) ou agem de maneira “não-pacífica”. Esse repúdio conservador é feito há muitas décadas, há muitos séculos, mas somente esses grupos “não-pacíficos” foram capazes de transformar a história em vários momentos. Vá ao Google e busque por revoluções e protestos que te asseguraram direitos. NENHUM deles conquistou NADA sentando com a PM no chão e cantando o Hino Nacional.

É impossível, a essa altura, controlar quem vai pras ruas e quem se junta ao movimento. Já era. Nossa ÚNICA esperança é que os manifestantes que de fato se importam em ROMPER o status quo sejam capazes de levantar a voz e manter os protestos SEM a massa conservadora. Veremos – como vimos ontem – que a mídia irá nos chamar de “pequenos grupos vândalos”, mas não é nada que já não conheçamos de perto. Seremos eternamente o “pequeno grupo vandâlo” de qualquer época, porque nós sempre caminhamos pra frente, com punhos erguidos, palavras de ordem, força e coragem de enfrentar a PM, o Choque e a mídia. 

Que cada um se sinta livre para tomar a atitude e a postura que julgar necessária. EU NÃO ACEITO a direita e nunca irei aceitar, eu NÃO caminho lado a lado com quem desrespeita os Direitos Humanos. EU NÃO ME CALO diante de cartazes conservadores. E você?

OBS: É pelos 20 centavos, pelo transporte que se diz público e não é, por quem e para quem 20 centavos a mais numa passagem é dinheiro demais. Quem não concorda com isso, já mostra quem de fato é.

DEPOIMENTOS

Relato de Roberto Ponciano :
“Eu estava lá e fiquem “mal impressionado”. Encontrei o povo, quando saí, fui num bar, beber e vi vários operários bebendo e falando do ato da massa cheirosa. Aos partidos de esquerda, ameaças, QUASE FÍSICAS, ABAIXA A BANDEIRA, VAI TOMAR NO CU! VAI PARA A PUTA QUE PARIU!!! Todos foram ameaçados, PCB, PSOL, PSTU. A juventude dourada da Zona Sul curtindo seu momento de catarse política contra tudo e contra todos. DCE da PUC-Rio em peso. Impeachment de Dilma como norte. Estive na frente da Alerj e me poupem, não tem nada de Globo ou infiltrado, TENTARAM POR FOGO NA ALERJ DE TODAS AS MANEIRAS. GARRAFAS DE GASOLINA, COQUETE MOLOTOV, FOGO NA PORTA E NOS BANNERS. Não, isto não é um movimento progressista ou de direta. É um movimento, RETROCEDE, BRASIL!”

ESTA É A REALIDADE, MANIFESTANTE “MASSA DE MANOBRA”!

Via Emanuelli Carvalho:

É importante atentar para a tentativa de golpe que as elites e parte da classe mérdia chatiada pode tentar.
Não queremos golpe, queremos aprofundar a democracia!

Depoimento de dentro do ato, em são paulo (um contra ponto na euforia, talvez?):
“na boa? foi patético. beirou o fascismo. foi vazio.
o povo nas ruas? 99% era branco e de classe média.
o povo acordou? amanhã vai ter trânsito e mais investimento em carros e transporte individual.
sou brasileiro, com muito orgulho e muito amor? quando uma menina falou “pinheirinho vive”, todo mundo riu.
foi moralista. pichação é uma forma legítima de manifestação. vaiaram um cara que subiu em um ônibus. ele subiu em um ônibus, só isso. se você está preocupado com a imagem do movimento nos jornais, não leia os jornais. é simples, não precisa absorver o preconceito e aplicá-lo. daqui a pouco vão pedir para os gays deixarem de ser gays em público, para diminuir o preconceito. quer dizer, já fazem isso, né?
ah, e sem falar que aplaudiam sem parar o cara que carregava uma faixa “sem funk alto no busão”. afinal de contas funk é som de pobre, sem qualidade. andar de busão também. credo, que nojo.
e não, não é por conta da corrupção do mensalão que a passagem está cara. é por conta do lucro das empresas de transporte. dos contratos assinados que lesam o povo. corrupção se combate com transparência nos governos, nas empresas e na imprensa, não com passeatas vazias.
o que foi bom? eu acho que aumentou a consciência em relação à aberração da existência de uma polícia militar. resta saber se amanhã a reação será a mesma quando a polícia bater em pobre, negro, índio…
sobre o povo ir às ruas, não sei em que difere do carnaval. até prefiro um carnaval, pra falar a verdade…
enfim, posso falar para as próximas gerações que participei do início da primavera classe média sofre. que bom que a ironia não nos abandona: o cara que grita que é brasileiro com orgulho fica puto com os impostos de produtos importados que ele compra. ah, e #vemprarua e#OGiganteAcordou são dois slogans de empresas… estrangeiras.
boa sorte.”

“SOBROU PARA TODO MUNDO”

“SOBROU PARA TODO MUNDO”

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O blogueiro Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania e do Movimento dos Sem-Mídia, acompanhou todo o protesto, que partiu do largo da Batata, em São Paulo; enquanto a Globo tentava se apropriar da manifestação, apontando protestos contra a PEC 37, algo que faz parte da agenda política da própria emissora, equipes da empresa eram hostilizadas; sobraram ataques para Geraldo Alckmin, todos os partidos e até para “petralhas”; “foi nisso que deu a mídia deslegitimar cotidianamente a política e o poder e seus críticos estimularem a descrença nela”, diz ele

 

18 DE JUNHO DE 2013 ÀS 08:03

 

Por Eduardo Guimarães, do Blog da Cidadania

Estive ontem (17.6) na manifestação de São Paulo contra o preço das passagens no transporte público, no Largo da Batata, zona Oeste da cidade. Cheguei às 16 horas e permaneci entre os manifestantes até por volta das 19 horas, quando empreendi uma epopeia pra voltar pra casa.

Descendo a rua Cardeal Arcoverde de carro, acompanhei a procissão de jovens que se estendia por quarteirões. Todos no mesmo rumo, todos com o mesmo ar contrito e de determinação nos rostos.

Encontrei um estacionamento estrategicamente localizado a pouco mais de um quarteirão do Largo. “Fecha às 20 horas”, disse-me o manobrista, caixa e, provavelmente, tudo o mais naquele terreno descoberto, com chão de terra e convertido em estacionamento.

Já na Brigadeiro Faria Lima, a algumas centenas de metros do Largo, já não caminhavam pelas calçadas, mas no meio da rua. Um ou outro carro passava, desviando dos pedestres, agora donos da via, como se os motoristas pedissem desculpas por estarem onde não deviam.

Ao longe, grandes bandeiras brancas e vermelhas se erguiam de uma massa humana que me impressionou por ser tão grande a uma hora do horário previsto para o início da manifestação. Nas bandeiras brancas, as letras UJS (ou algo assim) e, nas vermelhas, PSTU.

Agora faltavam menos de cem metros pra chegar à aglomeração. Uma juventude bonita e evidentemente universitária. As idades variando entre 15 e 30 anos, no máximo. Aqui e ali, algumas pessoas maduras. Senhoras com cabelos loiros, homens grisalhos, todos com aparência próspera.

Os comerciantes iam fechando as portas e os trabalhadores da região passavam apressados. Pareciam assustados. Alguns comentavam que não sabiam como fariam pra chegar em casa, mas ninguém prestava atenção neles – além deste que escreve.

Para um carro grande, prateado, tinindo de novo, do qual não me ocupei de ver a marca. Desce um homem corpulento, cabelos grisalhos, calça social, camisa social com o botão do colarinho aberto, de onde pendia uma gravata afrouxada.

De repente, o veículo é cercado por um grupo de três garotas e cinco rapazes. O homem circunda o veículo e, com o porta-malas já aberto, tira dele vários quadros com uns 40 centímetros de largura por quase um metro de comprimento.

Os quadros de madeira recobertos por material gráfico de boa qualidade citam “corrupção”.

O motorista engravatado diz alguma coisa ao grupo de jovens e arranca com o veículo.

Chego ao limite da aglomeração. Grades de cerca de 1, 5 metro separam o extremo da calçada do Largo da via dos carros. Aproveito um poste metálico próximo pra subir nelas segurando-me nele, de forma a ter uma visão melhor da aglomeração e registrar imagens.

Um grupo de jovens passa por mim dizendo que fora “sacanagem” o que fizeram com o repórter da Globo Caco Barcelos, que seria “boa gente”. Decido ir atrás pra escutar mais, tomando cuidado em não ser percebido.

Descubro que o repórter foi expulso da manifestação e que havia um grupo que pretendia impedir o trabalho de qualquer um que fosse da Globo, porque a emissora “queima o filme” do protesto.

Percebo que as bandeiras do PSTU sumiram. Pergunto a uma garota se viu pra onde foram e ela me explica que os que as portavam foram convencidos a não exibi-las.

Presto mais atenção e vejo, a uns 50 metros, uma única bandeira vermelha, só que pequena. Olhando melhor, percebo ser do PT. Decido ir lá ver quem a carrega.

Ao chegar já não era uma bandeira, mas duas. Modestas em tamanho, diante das outras. Uma, empunhada por uma jovem negra, baixinha, que olhava assustada ao redor. A outra, por um rapaz loiro, cabelos longos e óculos. Também parecia tenso.

Começamos a conversar com os dois e logo aparece o deputado federal pelo PT paulista Paulo Teixeira, com mais duas pessoas. Fico sabendo que outros parlamentares, de vários partidos, foram ao protesto de modo a “garantir o direito dos manifestantes”.

Naquele momento, com a chegada do deputado, as pessoas em volta começam a entoar um refrão contra bandeiras partidárias. Algo como “Sem par-ti-do, sem par-ti-do”.

Os dois jovens permanecem impassíveis com suas bandeiras. Ao contrário dos que portavam as do PSTU, não foram convencidos. Foram apupados. Mas permaneciam impassíveis na missão que se impuseram.

Os gritos aumentam, mas os dois jovens continuam firmes. Uma aglomeração se forma em volta de nós. Ouço palavrões. Peço à moça e ao seu companheiro que baixem seus estandartes. O rapaz me atende, mas a moça não.

Começam empurrões e xingamentos. Ouço alguém dizer “blogueiro petralha, filho da puta”.

Alguém arranca a bandeira da mão da moça e a empurra, ela cai, seu companheiro reage, há chutes, mais palavrões. Os contrários às bandeiras são maioria esmagadora – ou melhor, são todos.

No empurra-empurra, sou separado do deputado petista e de seu grupo. E dos dois valentes porta-estandartes.

Nesse momento, uma quantidade imensa de pessoas – pareceram-me centenas – começam a entoar um cântico: “Hei, PT, vai tomar no cu!!”

Tento filmar, acredito ter filmado, mas quando chegou em casa percebo que o empurra-empurra interrompeu o vídeo, no qual só se pode ouvir “Hei, PT, vai tom (…)”.

Tudo pode ser assistido no vídeo ao fim do texto.

Ouço alguém falando em “blogueiro do PT” e percebo que é hora de uma retirada estratégica. Embrenho-me na multidão até chegar à rua, que atravesso. Dali em diante, decido acompanhar tudo de longe.

Já anoitece e vejo fumaça e luminosidade colorida no meio da massa. Parecem ser fogos de artifício ou coisa que o valha, mas não consigo me certificar.

Ouço mais cânticos contra o PT. Arrisco chegar perto e uma mulher branca, alta, aparentando uns trinta e poucos anos discursa contra “mensaleiros” e diz que “O PT tem mesmo que se ferrar”.

Decido sair dali. Contorno a manifestação. Um grupo bem menor, de umas dez pessoas, entoa “O povo não é bobo, abaixo a rede Globo”.

Contorno mais um pouco a manifestação e vejo mais movimentação. E gritam “Sem violência, sem violência”. Percebo que está havendo um enfrentamento físico.

Chego próximo a um grupo bem maior em que, lá no meio, vejo cartazes em que só consigo ler “Alckmin” e “PM”, por conta do empurra-empurra. Parece haver divergência ali também.

Decido que é hora de ir. Enquanto retorno ao estacionamento, vejo os trabalhadores passando rentes à parede, passo rápido. Mulheres de saias e cabelos longos, de mãos dadas com crianças, olhar no chão.

Um homem magro, de uns quarenta anos, de boné, malha de lã bege e puída, calça suja de tinta e de tudo mais que se possa imaginar carrega uma mochila, apressado. Decido tentar falar com ele.

Digo que sou jornalista e se poderíamos conversar. Pergunto se veio participar da manifestação.

– Não, senhor, não tenho nada a ver com isso.

Insisto. O que ele acha de tudo aquilo? Fica nervoso. Diz que não sabe de nada, principalmente como vai chegar em casa, em Ferraz de Vasconcelos.

As passarelas sobre a avenida estão lotadas de trabalhadores andando apressados. Parecem robôs. Nem olham pros lados e ninguém olha pra eles. Alguns estão sentados, outros de pé nas paradas. Olhares perdidos no espaço.

Volto ao estacionamento, percebo que não conseguirei ir em frente na Faria Lima, dobro à direita, faço uma opção errada e caio, de novo, no Largo da Batata, agora intransitável.

Carros, ônibus, caminhões e até uma legião de motocicletas parados, presos entre manifestantes à frente, atrás, dos lados.

Ouço a sirene de uma ambulância. Os carros começam a subir nas calçadas, fazendo o possível pra dar passagem. A ambulância só consegue chegar até os manifestantes e estanca. Alguns saem do caminho, mas a maioria não dá a menor bola.

Um senhor de uns sessenta anos, com uma mulher mais ou menos da mesma idade no banco do passageiro, desce do carro e começa a xingar os manifestantes, falando da ambulância. Um jovem forte se aproxima, desafiador, mas é dissuadido por outros manifestantes.

Consigo chegar à Marginal do Rio Pinheiros, totalmente parada. Já são mais de oito horas da noite. Começo a tentar cortar por ruas transversais, disparo por avenidas vazias e acabo indo parar no Alto da Lapa.

Tento me localizar, que não conheço bem a região. Apelo ao GPS do celular, mas a bateria acaba.

Paro em um posto de gasolina. Três frentistas conversam com um homem mais ou menos com os mesmos cinquenta e tantos anos que eu, dono de uma Pajero negra, novinha, sendo abastecida até a tampa.

Paro o carro na bomba, mando abastecer e peço pra deixarem eu carregar um pouco o celular. Sou prontamente atendido. Digo que vai demorar um pouco. Dizem-me que “hoje não adianta ter pressa”.

Começamos a conversar. O assunto, claro, o caos na cidade. O motorista da Pajero tem sotaque nordestino. Está muito bravo com a Polícia. Xinga de tudo quanto é nome. Fala da foto da repórter da Folha com o olho arrebentado por uma bala de borracha.

Os frentistas só olham, sorridentes, mas não dão palpite. Como se estivessem em uma aula, tentando aprender alguma coisa – talvez o que “bacanas” como eu e meu novo amigo nordestino esperam ouvir deles quando forem perguntados sobre o assunto.

Pergunto como sair dali e minhas opções imediatas, segundo dizem os frentistas, é a Lapa ou voltar ao Largo da Batata.

O motorista da Pajero diz que vai me ajudar, que sabe como ir cortando até a Cerro Corá. Dali posso pegar a Rebouças, diz, pra voltar à região da Paulista, onde resido.

– Vem atrás de mim. Vou te escoltar até lá. Quando eu ligar o pisca-alerta vou entrar à esquerda e você, à direita. Vai subindo, sempre pra cima, mas fica à sua esquerda. Vai cair na Cerro Corá. De lá você pergunta.

Explico que, de lá, eu me viro.

Sigo-o até que faça a manobra combinada. Buzino, ele buzina de volta e vamos cada um cuidar da própria vida.

Surpreendo-me com a Heitor Penteado e a Rebouças. Parece que estou em um domingo às sete da manhã. Vazia. Não se vê viva alma nas ruas. Nem gente, nem carros, ônibus, motos, nada.

Já são quase 21 horas. Duas horas pra chegar até lá.

Ouço na CBN que já há manifestantes na Paulista. Decido voltar pela Rebouças até a Oscar Freire, fazer o retorno e tomá-la em direção ao Paraíso.

Tudo vazio. Assustadoramente vazio.

Continuo ouvindo a rádio que toca – ou que, segundo dizem, “troca” – notícia. Agora falam que manifestantes estão passando em frente da Globo, na Berrini. E que outros tantos estão indo ao Palácio dos Bandeirantes.

Minha mulher me liga no celular recém-carregado, preocupada. Acalmada, relata que o Jornal Nacional disse que a Globo foi xingada pela manifestação.

PT, Alckmin, Globo…

Penso comigo que foi nisso que deu a mídia deslegitimar cotidianamente a política e o poder e seus críticos estimularem a descrença nela. Sobrou pra todo mundo. Pensando bem, era até previsível.

 

 

 

UTOPIA DE HOJE PODE SER A REALIDADE DE AMANHÃ

UTOPIA DE HOJE PODE SER A REALIDADE DE AMANHÃ

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Voz das ruas dá grito de igualdade; estudantes vocalizam trabalhadores de todos os segmentos ao protestarem, no eixo São Paulo-Rio e em grandes capitais, contra sistema de ônibus caro, ruim e insuficiente; criminalizado nas ações brutalmente repressivas da PM dos governadores Geraldo Alckmin e Sergio Cabral, Movimento Passe Livre resgata vocação dos jovens em mudar e acelerar agenda conservadora; erro está em reclamar ou na barração ao diálogo para se encontrar soluções sobre problema crônico que envergonha o País?

 

15 DE JUNHO DE 2013 ÀS 07:08

 

247 – Rasgando uma cortina de gás lacrimogêneo, manchada de sangue e ao custo de centenas de prisões ocorridas no principal eixo urbano do País – São Paulo-Rio de Janeiro -, a questão do transporte coletivo nos grandes centros urbanos ressurgiu. Ou melhor, literalmente explodiu.

Tiveram muito mais o som de um clamor popular do que simplesmente um ato político estudantil as manifestações dos últimos dias, ocorridas também em Porto Alegre, Goiânia e Natal, contra o aumento das passagens de ônibus. Em apuração do instituto Datafolha, 78% do público paulistano considerou serem justos os protestos contra o aumento nas tarifas e a baixa qualidade do serviço oferecido.

Em qualquer grau, a repressão policial não terá o dom de resolver esse problema. Porque se trata de uma questão real, e não inventada por um punhado de jovens de classe média interessados apenas em fazer baderna. Ao contrário. Assim como, noutra geração de estudantes, na virada das décadas de 1970 e 1980, os rapazes e garotas que foram às ruas ajudaram a conseguir a anistia e, mais tarde, sustentaram a campanha das Diretas Já, agora, outra vez, eles não estão sozinhos. Ao seu modo, eles estão forjando uma mudança na agenda conservadora, para dar a ela aceleração compatível com o novo momento do Brasil.

DESCASO COMO REGRA – É histórico e reconhecido tanto pelo governo, como pela oposição, o descaso permanente das administrações municipais e estaduais com os serviços de ônibus, trens e metrô. Em São Paulo, há quase 50 anos prevalece o cartel das chamadas “sete irmãs”, as companhias de transporte coletivo sobre rodas que dominam a grande maioria das linhas da capital paulista.

No Rio de Janeiro, a população se acostumou a ter a maior desconfiança do seu sistema de ônibus, com raras opções para se locomover além da costumeira: a de chacoalhar ainda hoje em trens da década de 1950 pela crônica falta de linhas entre os subúrbios e o centro da cidade.

Em praticamente todas as capitais, licitações para modernização do sistema de transporte urbano têm sido raras, assim como são comuns os descalabros em torno de obras do metrô. Neste capítulo, Salvador, a capital baiana, que em dez anos construiu apenas pouco mais de um quilômetro de metrô, a preço bilionário, é o exemplo negativo mais gritante.

RENOVAÇÃO E AR CONDICIONADO – A exceção positiva está em Brasília. O Governo do Distrito Federal, depois de enfrentar boicotes do duopólio das companhias de ônibus das famílias Canhedo e Constantino, que dominam o sistema desde a fundação da cidade, em 1960, empreendeu uma licitação internacional que vai mudar, no segundo semestre, a face da atual situação.

Em lugar de ônibus com carcaças antigas, assentos desconfortáveis, pneus carecas e sem conexão entre suas linhas, a capital do País vai ganhar coletivos novos, com ar condicionado e integração de itinerários. Uma verdadeira revolução feita pelo Governo do Distrito Federal que, espera-se, tenha repercussões em outras grandes cidades. Uma mensagem didática de que, quando quer, a administração pública pode atacar o quadro de atraso cinquentenário verificado no setor.

Mas essa repercussão positiva não será fácil de ocorrer. Predominam entre os governantes interpretações arcaicas a respeito do verdadeiro sacrifício diário a que milhões de brasileiros são submetidos, todos os dias, ao saírem de suas casas em direção a seus postos de trabalho. Em coletivos antiquados, inseguros e superlotados, cujas tarifas demandam, por caras, acordos trabalhistas específicos, de modo a aliviar o bolso dos empregados, transferindo o ônus para a iniciativa privada, a verdade é que, todos os dias, em todos os grandes centros urbanos, o povo brasileiro viaja como gado. A questão dos subsídios tem de ser enfrentada. A má qualidade do sistema já não é mais aceita.

PERDAS DE QUATRO HORAS DIÁRIAS – Em São Paulo e no Rio chega-se a gastar duas horas de ida e outras duas horas de volta no deslocamento residência-emprego-residência. Assaltos, sequestros e até estupros viraram rotina. Quem já não ouviu relatos que afiançam esta informação? Trata-se de um dado da realidade, lançado como imutável. Não fosse assim, as primeiras reações dos governadores dos dois Estados, respectivamente Geraldo Alckmin e Sergio Cabral, não teria sido a de criminalizar o Movimento Passe Livre. O diálogo para entender as razões das entidades organizadas em torno dessa bandeira ficou, desde logo, em segundo plano. Armou-se a guerra antes de se dar uma chance à paz. O cenário para que a situação durante os protestos saísse de controle, com as cenas de violência que se seguiram, se desenhou neste momento em que as portas da negociação se mantiveram fechadas.

Da direita à esquerda, o que ressalta nas manifestações contra o aumento nas tarifas de ônibus é a sua base de sustentação. Goste-se ou não, os estudantes à frente tem, sim, justificativas históricas para reclamar em vias públicas. Não apenas porque a Constituição garante os direitos de reunião e manifestação, mas sobretudo porque apenas os hipócritas acreditam que o Brasil em algum momento de sua história tenha tido algum transporte coletivo minimamente decente. Os sistemas nacionais nunca chegaram aos pés dos existentes em nossos vizinhos, como a Argentina, de metrô buonairense datado do início do século passado, e, muito menos, dos Estado do primeiro mundo. Os trens balas que cortam o Japão, numa extrema sofisticação de um transporte coletivo bem resolvido, são ainda vistos no Brasil do século 21 como uma sonho inalcançável. No emergentes, o metrô russo é repleto de afrescos históricos. Os exemplos de soluções são muitos. Por aqui, entretanto, o que temos é pouco metrô e ônibus fortemente poluentes. Não mais.

Por sorte sem nenhum morto, mas com dezenas de feridos e centenas de presos, as manifestações nacionais do Movimento Passe Livre parecem ter despertado as autoridades para o problema. Em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad resolveu abrir a palavra para seus representantes, que na terça-feira próxima falarão aos integrantes do Conselho da Cidade. É pouco? Sim, mas um começo que pode desaguar, como está acontecendo em Brasília, numa ampla renovação do velho e ultrapassado sistema de ônibus. Tardiamente, mesmo assim ainda é possível ultrapassar o modelo caótico que, de tempos em tempos, provoca manifestações e protestos. Repressão está trazendo, apenas, dor, vergonha e radicalização. Nenhuma solução.

 

 

COMENTÁRIOS

60 comentários em “Utopia de hoje pode ser a realidade de amanhã”

  1. Gatuso 15.06.2013 às 10:23

    CADÊ O PESSOAL DA UNE, CUT, FORÇA SINDICAL, MST E OUTROS… QUE PRIMAVERA É ESSA?

  2. Ex PT 15.06.2013 às 09:51

    É uma vergonha. O problema não é falta de dinheiro, o problema é o roubo feito pelos governantes e políticos, que não se importam com o povo e a justiça nunca pune nem condena ninguém. TEMOS QUE NOS REVOLTAR MESMO E PARTIR PARA CIMA DESSES LADRÕES DO POVO.

  3. onda de golpes 15.06.2013 às 09:06

    Esses protestos seriam justos se fossem feitos por quem usa o sistema de transporte público, e não por quem anda de Pajero, Hilux e Land Rover.

  4. PAULO CEZAR 15.06.2013 às 09:04

    POR QUE NUNCA HOUVE PROTESTO CONTRA PEDÁGIOS ABUSIVOS? PARA ANDAR DE CARRO O SUJEITO É PENTA_TRIBUTADO. ICMS. IPVA, CIDE, PEDÁGIOS E A INDUSTRIA DAS MULTAS. POR QUE ESSES BANDIDOS NÃO FECHAM OS PEDÁGIOS?. POR QUE NÃO SE FAZ UM MOVIMENTO PARA DEVOLUÇÃO DAS ESTATAIS DOADAS? MUITO ESTRANHO , CHEIRA A GOLPE. A POLÍCIA E O EXERCITO TEM QUE AGIR RÁPIDO.

  5. onda de golpes 15.06.2013 às 08:59

    Os gastos com as obras da Copa totalizam 22,4 bilhões de dólares. A receita será de 142,4 bi. Ou seja, um ganho financeiro de 120 bilhões de dólares, sem falar no imenso legado social, pois as arenas servirão pra muitas outras coisas além de jogar bola. Mas os neobabacas, que só pensam pikeno, não enxergam isso, e protestam contra o “desperdício”. Ora, quem pensa pikeno não cresce. Aliás, se Copa e Olimpíadas não trouxessem qualquer benefício, os europeus e americanos jamais teriam patrocinado nenhuma.

  6. POR BEM OU POR MAL, O TRANSPORTE COLETIVO TEM QUE MUDAR… 15.06.2013 às 07:29

    O transporte coletivo aqui de GOIÂNIA reúne milhares de pessoas em terminais, verdadeiros “currais”; depois transportam as pessoas em condição poior que o transporte de “gado”. Transporte desumano, péssimo e muito caro. Governos ajudam empresários a comprar ÔNIBUS; empresários lucram MILHÕES e devolvem algum $$$$ para as campanhas de candidatos de todos os partidos… Resumo da ópera: transporte atende apenas aos interesses de candidatos, governantes e empresários…AO POVO NADA…Por isso aqui em Goiânia só os mais pobres andam de ônibus. A classe média tumultua o trânsito com uma pessoa por carro; assim que podem as domésticas e os serventes de pedreiros compram uma motinha; os que não conseguem comprar a moto, andam 30 40 km de bicicleta…Ficam nos ônibus as mulheres, os demais trabalhadores de mais baixa renda e as crianças e jovens estudantes…

  7. ESCORPIÃO 15.06.2013 às 07:27

    E O TERRORISMO DA IMPRENSA, E DOS CANALHAS QUE QUEREM O PODER NA CERTA SÃO OS RESPONSAVEIS PELO QUEBRA QUEBRA. QUANTOS AUMENTOS ABSURDOS TIVEMOS NO DESGOVERNO TUCANALHAS E NADA DISSO ACONTECEU! SÃO BANDIDOS DESESPERADOS QUERENDO O PODER E USANDO A JUVENTUDE COM ESCUDO.

  8. Paulo Cesar G. da Silva 15.06.2013 às 06:25

    Esqueci de comentar. Alguém já viu alguma (ORTORIDADE) é isso mesmo, andando de trem, ônibus. Me avisem estou louco pra ver. Foda-se o povo. Este sempre foi o lema. Tem uma gravação da polícia federal (investigando corrupção pra vairiar né, em Santa catarina (não sei qual a cidade) que o prefeiro fala com um secretário que quer que o povo se foda.

  9. Paulo Cesar G. da Silva 15.06.2013 às 06:12

    Porra, não vi, não li, e não escutei ninguém falar nada sobre a retirada dos impostos (PIS-PASEP-COFINS) da folha de pagamento destes canalhas dono de empresas de ônibus. Eles deverião é diminuir o preço das passagens. Ou não? Tem um vídeo no blog conversa afiada onde aparece um policial quebrando o carro da polícia. É isso mesmo, o covarde está quebrando o carro. A PM tem que acabar. No Brasil não existe homem pra peitar esta bandidagem.

EM SÃO PAULO, A ORDEM É ENDURECER

EM SÃO PAULO, A ORDEM É ENDURECER

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Novos protestos contra o aumento da tarifa de ônibus, marcados para o bairro de Pinheiros, na próxima segunda-feira, serão duramente reprimidos; essa é a determinação do governador Geraldo Alckmin e do secretário de Segurança, Fernando Grella

 

15 DE JUNHO DE 2013 ÀS 11:04

 

247 – São Paulo tem encontro marcado com a violência na próxima segunda-feira, quando está marcado mais um protesto contra o aumento das tarifas de ônibus, desta vez, em Pinheiros. Quem informa é a colunista Vera Magalhães, da Folha. Leia abaixo:

Sem meia-volta – VERA MAGALHÃES – PAINEL

O governo de São Paulo vai aumentar o número de policiais destacados para acompanhar os protestos contra aumento da tarifa de transportes na segunda-feira, em Pinheiros. A despeito das críticas de violência policial anteontem, o Palácio dos Bandeirantes fez internamente avaliação de que os confrontos se deveram ao fato de a PM estar em desvantagem numérica. A ordem continua a mesma: evitar “excessos”, mas impedir paralisação do trânsito e depredação da cidade.

Pulso 1 
O governo acredita que o secretário de Segurança, Fernando Grella, falhou em evitar que a tropa fosse às ruas com sentimento de revanche em relação à tentativa de linchamento de um soldado na terça-feira.

Pulso 2 
Aliados de Geraldo Alckmin lembram que Grella é egresso do Ministério Público e desde que assumiu tem dificuldade de ser aceito pela corporação, que estava em meio a uma crise quando houve a troca na pasta.

Compras 
Na reunião de ontem, Alckmin reclamou do uso excessivo de balas de borracha pelos policiais. Grella respondeu que a PM não tem equipamentos de impacto intermediário, como armas não-letais e algemas de plástico, que serão adquiridos.

 

 

COMENTÁRIOS

6 comentários em “Em São Paulo, a ordem é endurecer”

  1. victor 15.06.2013 às 13:44

    Como é bom der “dimenó” nessas horas Pode vir esses vermes malditos da PM Dez mil fuzis não podem contra dez milhôes de facas #passelivre #policiafacista #direitoshumanos #3,20não

  2. Marcelo 15.06.2013 às 13:06

    Acreditem se quiser. O “combate” a essas manifestações populares tem um auditor e é mesmo que auditou os “occupys” ao redor mundo: chama-se USA. Não será de estranhar esses movimentos serem tratados como movimentos terroristas. A história nos dirá. Yankee Go Home

  3. José 15.06.2013 às 12:54

    Toda ação tem uma reação, agrediu a policia leva o troco, pena que a resposta ta muito fraca.

  4. Kassirim 15.06.2013 às 11:34

    O Chuchu tem a inteligência de uma ostra com paralisis cerebral.

  5. Pela Ordem. 15.06.2013 às 11:32

    É isso mesmo.Tem que ‘sentar’ a borracha nos desordeiros que tentarem bagunçar e quebrar o patrimônio público de da cidade.

  6. E TEM O APOIO DA POPULAÇÃO ORDEIRA DE SÃO PAULO 15.06.2013 às 11:15

    A PM tem o apoio incondicional da população ordeira e que trabalha em São Paulo. Tem que ‘sentar’ a borracha nos desordeiros que tentarem bagunçar a cidade. Os agitadores da Imprensa, nós já sabemos quem são, a grande maioria, nas redações dos jornais. Que se previnam, o pau vai comer como na última manifestação. Agredir policial fardado é crime e pode ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional, que não foi abolida,

ENTIDADES ACUSAM PM DE INFILTRAÇÃO EM PASSEATA

ENTIDADES ACUSAM PM DE INFILTRAÇÃO EM PASSEATA

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Quinze organizações estudantis e de movimentos sociais afirmam, em manifesto, que não se pode esperar “comportamento democrático de uma PM liderada pelo PSDB”; texto diz que, em São Paulo, na quinta-feira 13, policiais provocaram manifestantes “com métodos desenvolvidos durante a ditadura”, promoveram o caos e agrediram cidadãos que estavam organizados de forma “pacífica”; ação de despejo de 1,6 mil famílias, no bairro Pinheirinho, em S. J dos Campos, ano passado, foi lembrada; antagonismo latente

 

14 DE JUNHO DE 2013 ÀS 17:56

 

247 – Assinado por 15 entidades, entre elas a União Nacional dos Estudantes, manifesto acusa a Polícia Militar de São Paulo de ter infiltrado agentes provocadores entre os manifestantes que protestaram, na quinta-feira 13, contra o aumento nas passagens de ônibus na capital paulista. A intenção era a de “desmoralizar a luta e organização” populares.

De acordo com o que o texto afirma, a PM, “mantém os métodos que desenvolveu durante a ditadura militar”. Foi feita uma referência direta à ação policial que desalojou cerca de 1,6 mil famílias no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, no ano passado. “Não podemos esperar um comportamento democrático de uma PM liderada pelo PSDB”, registra o manifesto.

Abaixo, a íntegra do manifesto e seu signatários:

MANIFESTO CONTRA A VIOLÊNCIA DA PM NOS PROTESTOS DE JOVENS PELO TRANSPORTE PÚBLICO

A ação da Polícia Militar do estado de São Paulo em protesto de jovens contra o aumento das tarifas da passagem do ônibus, metrô e trem na capital paulista é mais um episódio na história de violência e desrespeito ao direito de organização e manifestação.

O direito de manifestação sofre permanente ameaça no país, mesmo depois de 25 anos de promulgação da Constituição Federal, o que demonstra que a democracia ainda não está consolidada no país. A PM do estado de São Paulo, controlada pelo PSDB, mantém os métodos que desenvolveu na ditadura militar, reprimindo manifestações, efetuando prisões políticas de cidadãos e estimulando tumultos, inclusive com infiltrações para desmoralizar a luta e organização popular.

Não podemos esperar um comportamento democrático de uma PM liderada pelo PSDB que, em janeiro de 2012, mobilizou helicópteros, carros blindados e 2 mil soldados do Batalhão de Choque para fazer a reintegração de posse violenta de 1600 famílias que viviam desde 2004 no bairro Pinheirinho, em São José dos Campos (97 km de SP).

A legitimidade do protesto dos jovens contra o aumento das tarifas não pode ser desmoralizada por causa de ações equivocadas de uma minoria, que infelizmente não compreende que a sociedade está do lado daqueles que querem transporte barato e de qualidade para a população de São Paulo.

Apesar desses acontecimentos pontuais, a responsabilidade pela violência nos protestos é da Polícia Militar, que tem provocado o conjunto dos manifestantes, promovido o caos e agredido cidadãos que estão nas ruas exercendo o seu direito de manifestar de forma pacífica.

Esses protestos são importantes porque colocam em xeque uma questão central para a população da cidade, que é a mobilidade urbana. Os paulistanos perdem horas e horas todos os dias dentro de um carro ou ônibus parados no trânsito ou de um vagão de metrô e trem lotados. Horas que poderiam ser destinadas para ficar com a família ou para cultura, esporte e lazer, das quais são privados por causa de uma clara opção que privilegia o transporte privado e individual em detrimento do público e coletivo.

O histórico crescimento desordenado da cidade, o trânsito causado pelo número de carros nas horas de pico, a falta de linhas de metrô/trem, a baixa qualidade do sistema e a chantagem das empresas privadas concessionárias de ônibus, as altas tarifas do transporte público representam um problema social, que prejudica o conjunto da população, especialmente os mais pobres, que moram na periferia.

A lentidão da expansão do metrô é uma questão crônica da gestão do PSDB, que construiu apenas 21,6 Km de linhas do metrô, o que representa uma média de 1,4 km por ano. Com isso, São Paulo tem a menor rede metroviária entre as grandes capitais do mundo (apenas 65,9 km).

A gravidade dessa questão fez com que a mobilidade urbana fosse um dos temas centrais da campanha eleitoral para a prefeitura no ano passado. E o candidato Fernando Haddad, que acabou eleito, prometeu dar respostas que tocassem na raiz do problema.

A movimentação da prefeitura para adiar e realizar um aumento da passagem do ônibus abaixo da inflação do último período, dentro de um quadro de pressão das empresas concessionárias, não atende os anseios criados com a derrota dos setores conservadores nas eleições em São Paulo.

A resolução da questão urbana exige medidas estruturais, como a efetivação de um modelo de desenvolvimento, que prescinda o estímulo à indústria automobilística, e a implementação do controle direto sobre as tarifas por meio da municipalização dos transportes. Com isso, se evita soluções paliativas como a subvenção das concessionárias, financiando setores cujo interesse em lucrar se choca com a possibilidade de um sistema de transporte que atenda as necessidades da população.

Por isso, os protestos realizados pelos jovens ganham importância, uma vez que representam um sintoma do problema e constituem uma força social que pode apontar e sustentar mudanças estruturais na organização territorial e na mobilidade urbana. Essas mobilizações são um instrumento de pressão sobre as autoridades, para sustentar um processo de negociação, especialmente com a prefeitura, que esperamos que possa render conquistas para a população e acumular forças para novas lutas que virão.

Nesse processo, a mídia burguesa e os setores conservadores colocam uma cortina de fumaça sobre as soluções estruturais para as quais apontam os protestos, com a execração pública dos atos realizados por uma minoria. Esse tipo de cobertura coloca luz sobre os vínculos dos meios de comunicação da burguesia com as empresas automobilísticas (interessadas em vender mais carros), com as empresas privadas concessionárias de transporte (que lucram com a chantagem sobre a prefeitura) e com a especulação imobiliária (contrária à reorganização territorial).

Assim, manifestamos nosso apoio aos protestos dos jovens em defesa do transporte público, dos quais queremos contribuir para garantir a massificação e manifestação organizada e pacífica, condenamos a ação violenta da Polícia Militar, cobramos a libertação dos presos políticos e rechaçamos o aumento das tarifas de ônibus, metrô e trem.

ABGLT- Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais
ANEL – Assembleia Nacional de Estudantes – Livre
Consulta Popular
Fora do Eixo
JCUT- Juventude da Central Única dos Trabalhadores
JPT/SP- Juventude do Partido dos Trabalhadores da cidade de São Paulo
JSOL – Juventude Socialismo e Liberdade
JUNTOS!
Levante Popular da Juventude
MAB- Movimento dos Atingidos por Barragens
MST- Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
PJ- Pastoral da Juventude
PJMP- Pastoral da Juventude do Meio Popular
Quilombo
PSTU- Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado
REJU- Rede Ecumênica da Juventude
UBES- União Brasileira dos Estudantes Secundaristas
UJR- União da Juventude Rebelião
UJS- União da Juventude Socialista
UNE- União Nacional dos Estudantes

 

 

COMENTÁRIOS

As faces do movimento que está parando São Paulo

As faces do movimento que está parando São Paulo

Kiko Nogueira 12 de junho de 2013

“Nós não temos como controlar as pessoas que vêm aqui para quebrar tudo”.

Thaís Lopes, estudante de jornalismo

Thaís Lopes, estudante de jornalismo

O terceiro ato contra o aumento das tarifas de ônibus do Movimento Passe Livre terminou com um saldo de 20 detidos, barricadas, uma agência do Bradesco e uma estação de metrô depredadas e confrontos com a polícia na Estação da Sé, na Paulista e em alguns outros pontos da cidade.

O Diário acompanhou a manifestação que juntou aproximadamente 5 mil pessoas (as fotos são de autoria de Andrés Vera).

Por que terminou assim? Tem de terminar assim? É útil para a causa do Passe Livre que termine assim? “Nós não temos como controlar as pessoas que vêm aqui só para zoar e quebrar tudo”, me disse um membro do MPL que não quis se identificar. “Nossa ação tenta ser pacífica”.

A concentração na esquina da Paulista com a Consolação era relativamente tranquila na tarde feia paulistana. Em comum, todos estavam atendendo à convocação feita pelo Facebook. “Isso tudo é importante porque mostra como temos poder de mobilização. Tudo pela internet”, disse Thais Lopes,  estudante de jornalismo. Os membros do MPL batucavam na Praça do Ciclista, no coração da aglomeração. Usavam camisetas pretas com o símbolo da organização e entoavam gritos de guerra como: “Ô motorista, ô cobrador, me diz aí se seu salário aumentou”; “Mãos ao alto, 3 e 20 é um assalto”.

Em torno deles, a multidão de jovens – muitos deles com lenços cobrindo o nariz e a boca. Faixas estendidas. Havia bandeiras do PSTU, PCO e Juventude Marxista. O MPL era, na verdade, a minoria.

“Nós todos queremos a mesma coisa”, disse Guilherme Kranz, morador de Higienópolis e membro da Juventude Às Ruas. Guilherme distribuía panfletos de sua agremiação. “Há notícias de que até mesmo a Abin (A CIA brasileira) tem se infiltrado e espionado nossos atos e isso num governo de uma ‘ex-combatente’ contra a ditadura”, lia-se.

O homem destacado pelo MPL para falar com a imprensa era Caio Martins. Magro, alto, óculos de aros redondos, Caio mora na Lapa com os pais. “Nós decidimos que eu falaria com vocês numa reunião à tarde. Eu me sinto mais à vontade”, disse. “O movimento é apartidário, mas nós aceitamos todos os partidos que queiram se unir à luta. Em geral, é a polícia que começa a violência”. Caio declarou enxergar uma inspiração no Ocupe e nos protestos em Istambul, na Praça Taksim. “Nós somos um movimento social. Queremos transformar a realidade”.

A passeata seguiu em direção ao centro. A chuva intensa fez com que muitos se refugiassem nas marquises de lojas da Consolação. “Há muitas coisas ruins acontecendo no Brasil. É preciso dar um basta. Gostaria de ver mais famílias aqui”, disse Isadora Lima, de 32 anos, hostess, que aproveitou o dia de folga do trabalho para protestar.

“A USP está engajada, especialmente a FFLECH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas). O transporte tem de ser gratuito”, afirmou Renato Aguilar, morador de uma república e que vai à escola com o circular da USP — o qual, aliás, é gratuito. “Eu não me conformo com essa situação. Sou do coro de maracatu da faculdade e o pessoal do Passe Livre nos convidou a participar”.

A violência teve início na Praça da Sé, com a rotina de gás lacrimogêneo contra pedradas. “Esquecemos o vinagre”, disse Júlio Witer, estudante de geografia, de olhos vermelhos após uma bomba de efeito moral. Muitos levavam lenços embebidos em vinagre para amenizar os efeitos do gás. Sacos de lixo foram usados para acender fogueiras. Mais tarde, grupos se dispersaram e confrontos esparsos prosseguiram por algumas horas. Na Bela Cintra, bexigas com tinta foram atiradas nos policiais. Uma bomba explodiu na estação Brigadeiro do metrô. Os passageiros tiveram de sair por causa da fumaça.

“Não sei se vamos nos isolar. É possível que sim”, disse o estudante Reinaldo Carvalhosa. “Mas, enquanto estivermos irritando a esquerda e a direita, estamos no caminho certo”.

As faces da manifestação:

Adriana Martins, artista plástica

Adriana Martins, artista plástica

Guilherme Kranz, estudante e membro da Juventude Às Ruas

Guilherme Kranz, estudante e membro da Juventude Às Ruas

Stefany Marques, estudante

Stefany Marques, estudante

Enzo Santos, estudante de cinema

Enzo Santos, estudante de cinema

Isadora Lima, hostess

Isadora Lima, hostess

Melannie Schisler, estudante de geografia

Melannie Schisler, estudante de geografia

Júlio Witer, estudante de geografia

Júlio Witer, estudante de geografia

Rogério Che, diretor de fotografia

Rogério Che, diretor de fotografia

João Paulo Freire, enfermeiro

João Paulo Freire, enfermeiro

 

PROTESTOS…

Ministro da Justiça solicita informações da PF sobre manifestações em São Paulo e no Rio de Janeiro

Marcelo Brandão – Agência Brasil12.06.2013 – 19h16 | Atualizado em 12.06.2013 – 19h35


Para Ministério da Justiça, atos de violência são, até então, de competência exclusiva das polícias estaduais (NINJA)

Brasília – O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse hoje (12), em Brasília, que pedirá à Polícia Federal informações sobre as manifestações violentas que têm ocorrido em São Paulo e no Rio de Janeiro após o aumento das passagens do transporte público nas duas capitais. Em nota, o Ministério da Justiça informou, no entanto, que “não houve nenhuma determinação para abertura de inquérito policial pela Polícia Federal”. De acordo com o órgão, os atos de violência são, até então, de competência exclusiva das polícias estaduais.

Em visita à Paris para apresentação da candidatura de São Paulo à Expo Mundial 2020, o governador Geraldo Alckmin condenou a forma como a população tem se manifestado. “Isso extrapola o direito de expressão, isso é absoluta violência, vandalismo, baderna e é inaceitável. [A PM] agiu com profissionalismo. Houve, inclusive, policiais feridos pela violência do movimento”.

Leia também

Movimento pede suspensão do aumento de tarifas para acabar com protestos

Ministro da Justiça condena atos de violência em protestos contra aumento de passagem em São Paulo

As manifestações têm ocorrido desde a semana passada em São Paulo. O Movimento Passe Livre, organizador do protesto, informou, por meio de nota, que pediu uma audiência com o prefeito Fernando Haddad para negociar a reversão do reajuste de R$ 3 para R$ 3,20 na tarifa do transporte público, que entrou em vigor na semana passada. Foram detidas 17 pessoas e 85 ônibus foram avariados.

No Rio de Janeiro, a tarifa subiu de R$ 2,75 para R$ 2,95. Pontos de ônibus foram parcialmente destruídos na última segunda-feira (10). Pelo menos 34 pessoas foram detidas e levadas para a 5ª Delegacia de Polícia, no centro da cidade.

Edição: Fábio Massalli

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